Contos

Dia de sorte

Ana Beatriz Cabral


Meu nome é Dias. Dias D. Sort. Não é um nome, é um vaticínio. Eu sei. Coisas de pais neohippies da década de 60. 2060, entendam bem. Quase cinquenta anos depois, me acho aqui, talvez com alguma sorte. Decidam vocês.

Naquela manhã resolvi ir ao trabalho de carro. Sou um homem às antigas. Com a proliferação de implantes de teletransporte e a diminuição da população, as ruas ficaram mais vazias. Mas eu ainda não me acostumei com o efeito desse dispositivo. Tenho visões.

Voltando àquela manhã, estava sentado à mesa, lendo o jornal holográfico do dia, quando ela entrou. Sentou-se em frente ao meu chefe que quase derrubou o café, mas manteve a pose. Ela não percebeu ou fingiu não perceber o efeito que causava no ambiente.

Só tem homens no escritório. Só tem homens no prédio. E no quarteirão também. As mulheres se rebelaram por volta de 2087 e ocuparam Marte, fundando uma colônia inteiramente feminina. Na saída, levaram os estoques dos bancos de esperma e os animais de estimação. No Planeta Terra só tem homens e ratos. Atualmente, mais ratos que homens, já que a reprodução foi descontinuada e todas as tentativas diplomáticas de trazê-las de volta falharam.

Então, a visão daquela deusa era algo semelhante à bomba de Hiroshima naquele escritório poeirento. Não tive dúvidas, levantei e fui andando na direção dela. Precisva comprovar que não era outra holografia. Fiquei perto o suficiente para observar a criatura. Provavelmente sintética,feita no Japão, sob encomenda. Acabamento de primeira, sem falhas na pele. Japão, não, devia ser russa. As bonecas robóticas japonesas sempre tinham olhos enormes. Russa, com certeza. Loira, olhos azuis, meio tristes, tailleur bem cortado. Coisa fina.

Meu chefe me olhou de soslaio e disse – anote.

A história triste era a seguinte: mestre desaparecido há dois dias. Sem contato. Pessoa importante da sociedade. Não podia revelar o nome. Sua bateria estava acabando, se não encontrasse seu mestre em 24 horas, o único com o código de acesso ao carregador, entraria em modo hibernação. Inútil para sempre. Ninguém mais poderia usufruir daquela deusa cibernética. Uma pena!

– Vá com ela – disse o chefe.

Todo meu corpo tremeu, pelo menos as partes originais dele.

A limo flutuante ancorou na varanda do escritório. Ela entrou. Eu atrás dela observando aquelas curvas perfeitas. Deu o comando de voz – para casa - e o veículo partiu na velocidade da luz.

Saíamos da atmosfera e entramos em um daqueles condomínios orbitais que só se via em anúncios. A propriedade era monumental. Um castelo cheio de serviçais. Ainda bem que eu era um homem das antigas.

O mordomo nos recebeu com bebidas e trajes prêt-à-porter encapsulados. Já era quase hora do jantar. Adentrei o recinto empertigado no smoking sob medida automático. Ela trajava um longo azul de veludo. Um decote mais profundo que o Grand Canyon. E ainda lia meus pensamentos obscuros. Certamente, tinha o módulo empatia original de fábrica.

Enquanto meu olhar deslizava no abismo do decote, me dei conta da bela armadilha em que caía. Onde estavam aqueles olhos tristes? Não havia Mestre sumido algum,era um artifício.

Eu tinha poucos minutos para pensar em alguma solução. Já imaginava ela e seu dono desfrutando das partes originais do meu corpo - e no mau sentido do termo. Na hora, me arrependi de não ter aproveitado a oferta do aplicativo de inteligência Smart Plus. Teria que me virar com os meus instintos básicos mesmo.

Ela me guiou para um sofá enorme e me serviu outra bebida. Percebeu meu desconforto e sentou-se bem perto de mim. A boca carnuda, vermelha e entreaberta exibia uma língua nervosa entre dentes perolados e discretamente alongados. A boneca era romena.Dei um gole rápido no Brandy. Perfeito. Derrubei o resto do liquido no vestido azul. Afastou-se com horror. Nenhuma mulher, sintética ou não, permanece bem humorada com um vestido manchado.
Acionei o dispositivo de teletransporte implantado no cotovelo esquerdo. Apareci no trabalho, conforme programado, nu em pelo.

- Já chegou? – Perguntou o chefe, sem demonstrar espanto.
Peguei a roupa sobressalente na gaveta e me vesti.

- E o mestre sumido? Descobriu quem é?

- Conde Drácula – respondi.

Ele riu. Eu não. Ainda sob efeito do deslocamento molecular, achei os dentes do chefe muito pontudos para o meu gosto...

 

 

 

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