Contos

Inocência

Pedro Barbosa


Quando voltei à realidade é que me dei conta do que havia feito. Que cena horrível. Sangue pelas paredes, pelo meu corpo. E aquele corpo, principalmente aquele corpo, totalmente irreconhecível aos meus pés. A barba empapada, o intestino saltado, o osso da perna com fratura exposta e a orelha caída ao lado.
Só naquele momento senti o verdadeiro peso daquele machado. Como podia eu, tão fraca, tão frágil, tão submissa, tão EU, ter feito uma coisa dessas?
Eu bem sabia que não podia mais aguentar aquilo, aquele homem, aquele bafo de bebida toda a noite, aquelas surras, aquelas palavras, aquela autoridade, aquela dor.
Deixei o machado ao lado da cama nessa noite, eu precisava me livrar daquele monstro! Esperei ele chegar com a agressividade de sempre, me mandando acordar pra dar pra ele, pra fazer a única coisa pra qual eu servia. Já ia tirando o cinto para começar o espancamento, me chamando de cadela.
Admito que gostei! Parti para cima dele com o machado e acertei em cheio na cabeça. Não conseguia mais parar. Depois da cabeça, acertei a barriga, a perna, a cabeça, a barriga, a perna, a cabeça, a barriga, a perna!
Eu sou culpada, admito. Cometi esse crime. Esse crime horrível! Vossa excelência e caro jurados, eu me declaro culpada.

 

 

 

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