Contos

Relâmpago

Fernanda Stéfano




Fernanda Stéfano

As luzes da Paulista em dezembro davam ao céu as estrelas que a poluição escondia. Eu as contemplava entre um semáforo e outro através da janela meio aberta, donde um ventinho entrava trazendo cheiro de chuva. Foi quando o céu se abriu num clarão, lançando gotas violentas contra o para brisas e me pareceu que delas, vinha também à ordem repentina:

– Destrave as portas. – disse uma voz que não era da chuva.

Um segundo apenas. O sujeito se instalou no banco traseiro entre o apagar e ascender dos enfeites, tão rápido quanto os raios que disputavam o céu com a decoração. Senti um arrepio gélido em meu pescoço, provocado pelo objeto contra ele empunhado e meu raciocínio pareceu congelar. Então simplesmente obedeci.

- Abriu. Siga em frente. – a luz verde do farol sobressaiu-se de repente a todas as outras, liberando a passagem e travando minha garganta. Tentei dizer: - Leve tudo. Pode levar. Mas, ao invés disso, permaneci mudo, guiado pela voz que comandava meus movimentos.

- Dobre a próxima à esquerda e estacione no posto de gasolina. – as instruções eram em tom suave, em contraste com o frio agressivo do metal na minha pele. Eu obedecia, impassível. – Saia devagar. Vamos andando.

O objeto aterrador, oculto sob um casaco preto, agora roçava minha espinha. O sujeito na retaguarda me guiava até a loja de conveniência. Olhei em volta. Um dos frentistas conversava com a moça do balcão. Meus olhos gritam, mas nenhum deles parece escutar. Enquanto eu aperto os botões que compõe minha senha no caixa eletrônico num dos cantos do estabelecimento, mais um estrondo nos céus sacode meus pensamentos. Eu apenas obedeço.

- Pronto, vamos voltar. Caminhe devagar. – continuamos a peregrinação - Próxima esquerda. Agora à direita. Encoste ali na frente. Pare aqui. Esquerda novamente...

Outro trovão, mais um caixa vinte quatro horas, muitas outras luzes. Com as mãos estrangulando o volante e não juntas em reza, apelei para o divino quando o brilho delas destacou o menino Jesus do presépio armado no canteiro central próximo ao relógio que apontava três da manhã. Comecei a sussurrar uma oração e foi então que o espelho retrovisor refletiu atrás de nós uma nova luz.
- Acelera. – eu obedecia.

A luz vem engrossada pelo som da sirene e se mantém em nosso encalço. Minha reza acompanha a velocidade. A chuva, a entonação da voz no comando e o suor que me encharca o jaleco. Tudo parece crescer.

- Acelera! - eu obedeço à ordem, que agora é grito. Gritavam também as nuvens, os pneus e a sirene logo atrás.

Novamente um segundo. Mais uma luz rasga o céu na vertical e o estampido seco entre a sirene e o trovão rasga em mim. Tudo feito relâmpago. Não pude ver de onde veio o dono da voz, nem o som, nem a bala, nem o vermelho inundando o branco do jaleco. Agora faz silêncio e todas as luzes parecem vir apenas do céu.

 

 

 

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