Contos

A Jaqueta

Luciano Cavalcante de Albuquerque




O rapaz, bem vestido e elegante, se aproxima suavemente. Passos lentos e compassados. Bem de frente a porta da casa, bate palmas.
- Bom dia, Senhora!
- Bom dia, Dotor – retruca uma idosa simpática e humilde.
- Vim buscar minha jaqueta que deixei ontem com minha namorada.
- E ela disse que mora aqui?
- Sim. Ainda ontem à noite, ao nos despedirmos, a deixei na frente desta casa.
- O senhor namora com a moça e não frequenta sua casa?
- Na verdade estávamos namorando há pouco mais de uma semana e ela dizia ser cedo para me apresentar aos familiares. Assim combinamos adiar um pouco essa etapa.
- Onde o senhor a conheceu?
- Nos conhecemos na solidão da noite estrelada, numa esquina deserta onde só havia o céu e a lua como testemunha.
- Ela não disse seu nome?
- Eu a chamava de “Misteriosa da noite”! Nunca me importei sobre seu nome de batismo. Estar com ela e desfrutar de seu amor era tudo o que me importava.
- Por que resolveu a procurar aqui já que tinham combinado as apresentações familiares em outra ocasião?
- Ontem à noite eu havia colocado minha jaqueta nela, pois estava muito frio. Nos despedimos e só ao chegar em casa percebi que não a peguei de volta. Ocorre que minha carteira encontra-se no seu bolso. Não tive alternativa senão vir buscá-la.
Aquela senhora de longos cabelos pretos, rosto sereno e olhos profundos, sorriu amavelmente e lhe disse:
- O senhor deve tá enganado! A única moça que morava nesta casa – completou – era minha filha única, que morreu em um acidente de carro há um ano.
Pediu que o cavalheiro entrasse e, apontando para um retrato na parede, falou:
- Olhe, aquela é minha filha!
- Não é possível – bradou o cavalheiro – ainda ontem à noite deixei esta moça aqui na frente desta casa.

Diante da insistência e incredulidade daquele rapaz, Deodora pediu que a acompanhasse ao cemitério, que ficava pertinho dali. Adentraram naquele recinto silencioso. Depois de percorrerem ruelas apertadas que separavam túmulos suntuosos, ela direciona-se a um enorme a sua frente e lhe diz:
- Aqui está, o túmulo de Sílvia!
Ao ver a foto daquela linda mulher de longos cabelos pretos, rosto afilado, aparentando 25 anos de idade, com a inscrição em sua lápide registrando a data exata de sua morte, constatou ser a mesma mulher com a qual ele encontrava todas as noites, beijava e fazia juras de amor.
Sobre o túmulo, a jaqueta de Adalberto carinhosamente sobreposta!

 

 

 

Comentários:

Envie seu comentário

Nome :
E-mail :
Cidade/UF:
Mensagem:
Verificação:
Repita os caracteres "055703" no campo.