"A Festa
 



Contos

"A Festa

Stefanny Campagnaro




A Chopada da Faculdade de Medicina de Vit√≥ria √© considerada ¬ďa festa¬Ē para os universit√°rios. Com cem reais voc√™ adquire um convite para curtir o evento em um local paradis√≠aco, com comida e bebida liberadas, ao som das melhores bandas do momento. √Č claro que eu n√£o ficaria de fora dessa, mesmo com meus pais buzinando no meu ouvido.

Segundo Dona Luzia e Seu Carlos, aquilo não era o local adequado para uma garota como eu. Paciência! Esse ano eu tenho motivos de sobra para marcar presença: eu era uma das alunas do primeiro período da Faculdade e tinha a obrigação de vender, no mínimo, vinte convites. (Um deles, óbvio, era o meu!) E a turma que realizasse essa empreitada com sucesso receberia a quantia integral das vendas depositada na conta corrente criada para custear as despesas do baile de formatura.

Victoria era a Presidenta da Comiss√£o de Formatura da nossa sala. E posso dizer que ela √© a pessoa mais competitiva e esfor√ßada que conhe√ßo. Para incentivar nossos colegas, ela prop√īs que a pessoa que vendesse o maior n√ļmero de convites teria direito a um jantar no restaurante de sua irm√£, o Artem√≠sia. Poderia parecer besteira, se este n√£o fosse o lugar mais badalado de Vit√≥ria, em que era necess√°ria reserva com anteced√™ncia m√≠nima de dois meses.

O vencedor foi Danilo. Muitos ficaram chateados, achando que havia sido marmelada, j√° que ele era um grande amigo de Victoria. Mas os n√ļmeros n√£o mentem, assim como a quantidade de conhecidos e o poder de persuas√£o desse ador√°vel garoto.
Victoria e Danilo s√£o meus amigos desde que cursamos o ensino m√©dio do Col√©gio S√£o Francisco. E n√£o seria natural se n√£o f√īssemos aprovados na mesma faculdade e estud√°ssemos na mesma classe, pois faz√≠amos absolutamente tudo juntos, apesar de sermos pessoas muito diferentes.

Danilo fazia o tipo moderninho e conhecedor de todas as tend√™ncias de moda, beleza e baladas. Era figurinha carimbada nos melhores eventos e seu rosto estava sempre estampado em fotos das colunas sociais. Victoria por sua vez fazia a linha gera√ß√£o sa√ļde. Detestava dormir tarde, bebidas alco√≥licas e doces em excesso, a n√£o ser que fosse uma ocasi√£o especial. Eu tinha um pouquinho dos dois. Creio que seja esta a raz√£o de nossa amizade ter durado tantos anos.

Meus pais não eram as pessoas mais flexíveis do mundo. Penso que é pelo fato de minha irmã mais velha, Samantha, não gostar de se divertir e curtir a vida. Não tenho inveja da minha irmã. Acho que tenho um pouco de pena, pois eles colocam todas as suas expectativas sobre ela. Nada a reclamar da Sam. Sempre foi um doce de pessoa, toda certinha e exemplar: melhor aluna da escola, fundadora de clube de livro, oradora da turma do ensino médio, primeiro lugar geral do vestufes. Resumindo, a filha perfeita e preferida (sim, isso existe!).

Diferente de mim, Samantha nunca foi muito enturmada. Andava com uma amiga feinha e sombria chamada Jaqueline, ficando sempre isoladas em um canto do pátio da escola. Penso que foi por insistência dessa garota que Samantha resolveu ir para a falta. E isso deixou meus pais bem aliviados, já que iríamos juntas e imaginavam que ela ficaria de olho em mim.

- Samantha, você é a ajuizada da casa. Não deixe a Sabrina fazer besteiras.

- Porra, mãe. Sou universitária agora. Larga do meu pé.

- N√£o fale assim com sua m√£e, sua insolente.

- Parem de brigar, por favor. Eu j√° falei que cuido dela.

- Eu n√£o preciso de bab√°, cacete!

- Olha essa boca!

√Č duro ser a rebelde sem causa do lar. Ah... Sem causa uma v√≠rgula. Eu detesto todo esse controle exagerado, essa fixa√ß√£o com os meus amigos, e toda essa repress√£o sem sentido. Nunca fiz merda nenhuma na vida. Bebo pouco, n√£o uso drogas, sempre fiz sexo com camisinha e n√£o falo com estranhos. Por que diabos n√£o √© poss√≠vel confiar em mim? S√≥ porque sou popular?

Esperei ansiosamente pela Chopada. E para mim, pelo menos, foi incrível. Dancei, me diverti com meus amigos como se não houvesse amanhã e ainda encontrei alguém que posso chamar de meu príncipe encantado. Marcos também cursava o quinto período de medicina na FMV, irmão de um amigo colorido do Danilo. Já nos conhecíamos, mas nunca tivemos a oportunidade de conversar.

Marcos era sensacionalmente lindo. E para completar, tinha aquela voz sedutora que deixava todos os pelos do meu corpo arrepiados e fazia meu coração disparar com o simples toque dos seus lábios nos meus. Ele realmente me deixava nas nuvens. E era a primeira vez que eu me sentia assim.

Quando cheguei em casa, já deviam ser umas sete horas da manhã. Estranhei de imediato a ausência de movimentação.

Aquilo era realmente esquisito, já que meus pais são pessoas que acordam muito cedo, mesmo nos fins de semana. Fui até o quarto deles e abri bem devagar a porta. Vazio. Caminhei até o quarto de Samantha. Ninguém. Coloquei o aparelho de celular para recarregar a bateria e logo que foi ligado, começou a disparar com os avisos de chegada de mensagens de voz.

¬ďSabrina, cad√™ voc√™? Estou atr√°s de voc√™ faz um temp√£o. Passando mal... Me leva para casa.¬Ē

¬ďAchei a Jaqueline. N√£o se preocupe. Vou ficar bem.¬Ē

¬ďAmiga, onde voc√™ se enfiou? Sua safada. N√£o acredito que voc√™ vazou e largou a gente aqui! Diz pra mim que voc√™ n√£o vai dar de primeira pro Marcos! Bem... at√© eu que nunca fa√ßo isso daria! Hahaha! Tem camisinha na sua bolsa, n√©? Me liga amanh√£. Quero saber todos os detalhes! Beijos.¬Ē

¬ďSabrina sua louca! Cad√™ voc√™? Vi sua irm√£ passando praticamente carregada por um cara muito estranho. T√° tudo bem? Devo ficar preocupado? Puta que pariu! Sua irm√£ parece drogada. Atende essa merda desse telefone¬Ē.

¬ďSabrina, minha filha. Onde voc√™ est√°? Estamos desesperados atr√°s de voc√™... Recebi uma liga√ß√£o do Hospital Santa Eug√™nia. Sua irm√£ foi levada √†s pressas para l√°. Por favor. Venha para c√° com urg√™ncia¬Ē.

Puta que pariu. O que a Samantha aprontou?

Entrei no meu carro e parti em direção ao hospital. Eu só me dei conta de que deveria ter colocado uma roupa mais decente e jogado uma água no rosto quando um dos meus professores da faculdade me abordou na porta do hospital, brincando comigo, dizendo que a farra devia ter sido muito boa.

Liguei para meu pai, que estava com uma voz chorosa, e consegui a localização deles. Apartamento 603. Meu coração estava a mil. Tudo o que eu queria era ver minha irmã e ter certeza de que ela estava bem.

Quando eu a encontrei na festa, ela parecia ótima. Era a primeira vez que eu a via mais solta, divertida e relaxada.

Ficamos um bom tempo juntas. Era nítido que ela havia tomado uma tacinha ou outra de espumante, mas não estava bêbada a ponto de ser internada por coma alcoólico.

Ao entrar no quarto me deparei com uma cena que me deixou realmente estatelada. Nem consegui ouvi as vozes dos meus pais. Apenas me sentei ao seu lado da cama e acariciei seus cabelos loiros emaranhados. Seu corpo estava praticamente inerte e ligado a uma s√©rie de aparelhos. Abracei meus pais e disse que tudo ficaria bem. Olhei na prancheta o nome da m√©dica que estava de plant√£o e fui atr√°s dela para saber o que havia acontecido. Aquilo n√£o parecia nem de longe um simples ¬ďcoma alco√≥lico¬Ē.

Doutora Iracema não me era estranha. Creio que lecionava na FMV. Logo que a abordei, ela me olhou dos pés a cabeça com uma sobrancelha levantada e respondi sua pergunta mental.

- Sim. A festa foi ótima. Mas estou aqui por causa da minha irmã, Samantha Costa.

- Ah... Você é a Sabrina. Sua mãe chegou a perguntar aos policiais se eles tinham notícias suas.

- Policiais? Do que a Senhora est√° falando?

- Pelo visto não te informaram. Sua irmã quase teve uma overdose. Se não tivessem corrido com ela para cá, provavelmente estaria morta agora. Encontramos em seu sangue compostos da cocaína.

Precisei me apoiar na parede mais próxima de mim para digerir a informação. Cocaína. Overdose. Nada daquilo fazia sentido. Não combinava com a minha irmã, impossível. Retornei para o leito e abracei com força meus pais e deixei as lágrimas jorrarem do meu rosto. Permanecemos o dia inteiro em silêncio. Não havia nada que pudesse ser dito que bloqueasse a dor.

Samantha acordou dois dias depois. Estava bem assustada e perguntou v√°rias vezes o que havia acontecido para ter sido levada para o hospital. N√£o se lembrava de absolutamente nada. Durante os dias em que ficou internada, eu e meus pais estivemos completamente alheios a tudo o que ocorria a nossa volta. Eles trabalhavam o dia inteiro. E para n√£o deix√°-los cansados e ainda mais estressados, preferi fazer companhia para minha irm√£.

Apesar de nossa diferen√ßa de idade ser de apenas dois anos, eu e Samantha nunca fomos muito ligadas. Acho que no fundo eu sentia ci√ļmes por ela ser a queridinha da fam√≠lia. Mas durante os cinco dias em que est√°vamos no hospital, desenvolvemos essa liga√ß√£o de irm√£s-amigas que eu tanto almejava.

Em raz√£o do tempo livre que t√≠nhamos sozinhas, convers√°vamos bastante. E acabamos trocando algumas confiss√Ķes. Contei para ela sobre o Marcos e como eu fui parar na casa dele durante a festa, e ela me falou que estava ficando com um garoto do curso de Odontologia da Universidade Federal, que ela havia conhecido na biblioteca. E confessou que foi ele quem deu a ela a droga que a levou a ser internada √†s pressas no hospital.

- Ele me disse que seria divertido... Que eu ficaria relaxada e excitada.

- Excitada? Você transou com ele no dia da festa?

- Não lembro direito. Vem um flash ou outro na cabeça, mas nada muito claro.

- Você é louca, Sam! Nunca imaginei que você faria algo assim. Isso é o que esperam de mim, não de você.

Quando Samantha voltou para casa, restabeleci minha rotina habitual. E logo que pisei na faculdade, reparei que algumas pessoas me olhavam de modo diferente. Algumas com pena, outras com maldade. Me perguntei se eu havia feito alguma merda na festa. Eu tinha certeza que não, até porque fui embora com Marcos umas três da manhã.

Victoria e Danilo estavam sentados no pátio. Perguntei se eu havia feito algo errado na festa e se eles sabiam o que estava acontecendo. Danilo coçou a cabeça, Victoria desviou o olhar encarando o chão.

- Por favor... Conta você Dan Não consigo.

- Falem logo. O que houve?!

- Tem um vídeo erótico da Samantha na internet.

- H√£?

- Calma amiga. N√£o chora.

Danilo sempre nos mostrava os vídeos eróticos que recebia de jovens e adolescentes que se permitiam ser filmadas. Engraçado é que eu sempre critiquei essas meninas. Achava ridículo elas se prestarem a esse papel. E sempre que isso ocorre, o desenrolar da história é o mesmo... O vídeo cai na rede e se espalha que nem vírus. Horas depois, todo mundo já o possui. A garota é sempre a mais ofendida, uma vez que não divulgam só o vídeo, como também a página das redes sociais e até mesmo o telefone.

Dias depois, as v√≠timas est√£o dando entrevista em jornal e postando nas redes sociais uma mensagem imensa dizendo que n√£o sabiam como aquilo havia acontecido, j√° que confiavam tanto no namorado/ficante. ¬ďAconteceu porque voc√™ foi permissiva demais¬Ē, eu recriminava.

E agora isso estava acontecendo dentro da minha família.

Minha própria irmã havia sido uma vítima de crimes virtuais. Minha cabeça fervia. Eu precisava ver a Samantha e me assegurar que ela não havia assistido essa porcaria ainda.

Ao chegar em casa, fui direto para o seu quarto. Ela estava deitada na cama encolhida, com o cobertor cobrindo sua cabeça. Bati antes de entrar. Nada de ela se mexer.

Perguntei se estava tudo bem. Sem resposta. Em sua mesinha de cabeceira, vi seu tablet com a página do facebook aberta contendo uma série de comentários obscenos e maldosos.

Respirei fundo pra conter a raiva.

Puxei delicadamente a colcha para que eu pudesse dizer que ela n√£o precisava se esconder, que eu estava ali para o que ela precisasse, e que juntas superar√≠amos esse problema. Mas acabei me deparando com seu corpo todo ensanguentado e dois cortes profundos no antebra√ßo direito. Ao seu lado, uma caixa de analg√©sicos e uma faca de cer√Ęmica.

Ca√≠ sentada no ch√£o, sem rea√ß√£o e com olhar fixo em seu rosto. Era vis√≠vel a agonia e a dor. Depois de um minuto, me recompus e me forcei a pensar de modo racional. Tomei seu pulso esquerdo para ver se estava morta. Batimentos extremamente fracos. Liguei para uma ambul√Ęncia e pedi m√°xima urg√™ncia.

A espera pelo socorro pareceu uma eternidade. Busquei no banheiro um pacote de gaze para estancar o sangue que ainda irrompia. Como a hemorragia não cessava, tentei estagná-la com uma compressão indireta, apertando a artéria braquial, que fica próxima da axila. Apesar dos meus esforços, foi tudo em vão.

Quando perdi sua pulsa√ß√£o, me segurei ao m√°ximo para n√£o entrar em p√Ęnico. Pus a m√£o em seu peito e senti seu cora√ß√£o vibrar com muita for√ßa. Percebi tamb√©m que sua respira√ß√£o estava excessivamente acelerada. Sintomas da exsanguina√ß√£o.

Ela precisava urgentemente de uma transfusão sanguínea. Eu estava de mãos atadas. Só me restava aguardar o socorro.

Sentei no ch√£o ao lado de sua cama, segurei sua m√£o s√£ e deixei cair as l√°grimas reprimidas. Aproveitei aquele pequeno momento para dizer o quanto a amava e a admirava, e como eu sentiria falta do seu sorriso compreensivo e do seu carinho fraternal.

Os paramédicos finalmente chegaram e apenas constataram o inevitável.

No vazio de seu quarto, ficou a saudade e a sede de justiça.


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