Contos

Será que Cristina volta?

Ana Cristina Sampaio Alves




As olheiras fundas denunciam as noites que não tenho dormido. Há uma semana não prego o olho. Os lençóis estão esticados na cama e não tenho coragem de desarrumá-los. Em compensação, todos os cinzeiros da casa transbordam. Esse vício ainda me mata, mas que fazer se o tempo não passa, a cabeça não descansa e a cada hora eu estico o pescoço na janela, olho pra um lado, pro outro, e nada?

Faz uma semana que Cristina bateu a porta, desligou o celular, sumiu no mundo. Já liguei para os amigos, os parentes, os colegas do trabalho. Nem sinal dela. Ontem saí na rua batendo nas portas dos vizinhos. Por um acaso não viram Cristina? Uns queriam saber o que houve. Brigaram? Ela estava doente? Deprimida? O que você fez a ela? Outros simplesmente nem sabiam quem era. E a cada porta que se fechava eu me perguntava por onde anda essa danada.

Outro dia li que existe telepatia. Então vou me concentrar em Cristina para ela captar minha angústia, minha saudade. Volta, Cristina! Estou te esperando. Não sei viver sem você. Por que me abandonou? Por que saiu de casa assim, sem nem se despedir, dizer para onde ia, a que horas voltava? Por que não foi trabalhar esses dias? Estará num hospital? Meu Deus, ainda não liguei para os hospitais!

Meu coração começa a bater forte. A imagem de Cristina sendo atropelada, entrando num hospital, passando por uma cirurgia. Ela estaria agora numa cama, sozinha, sem documentos, não sabiam quem ela era. Nenhum telefone, nenhum contato. Há uma semana ela deve estar lá, se recuperando, talvez sem memória. Por isso não telefona, não faz contato com os amigos ou com o pessoal do trabalho.

Vou até o quarto pegar o telefone e ligar para os hospitais. Em cima da cama, vejo algo que ainda não tinha reparado durante toda a semana. A bolsa de Cristina. E dentro dela está seu celular, seus documentos, sua carteira, suas chaves. Ela saíra sem levar nada? E me lembro de quando ouvi a porta bater, um baque surdo. Primeiro pensei ter sido um vento forte que tivesse batido a porta da frente.

Cristina teimava em deixar a porta aberta em dias de calorão. Gritei para que a fechasse. Não gosto que os vizinhos bisbilhotem a nossa casa. Ela não respondeu. Fui até a sala e não a vi. A porta estava fechada. Chamei por ela e nada. Estranho. Cristina? Percorri o apartamento e ela sumira. Pensei que tivesse ido comprar alguma coisa na rua, ido ao trabalho, à casa de uma vizinha, uma amiga, esperei até anoitecer e nada de Cristina voltar. Nenhum sinal dela. E hoje faz sete dias que ela se foi. Com certeza está num hospital, e eu, tonto, não pensei nisso antes, coitada.

Acabo de tropeçar em Cristina aos pés da cama. Ao lado do corpo, um mar de sangue. Estou paralisado e aos poucos tomo coragem de olhar à minha volta. As paredes têm manchas de sangue. No chão, pegadas e mais pegadas ensanguentadas. E percebo que são dos meus sapatos. Está quase tudo seco.

Nessa hora, deixo cair a arma.

 

 

 

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