Rapunzel
 



Contos

Rapunzel

Ricardo André dos Santos




Duas semanas antes, Rapunzel tateara, durante o banho, um caroço em sua mama esquerda. O receoso medo que sentira naquele momento, tal qual o pálido bolor que acomete o pão envelhecido (quase imperceptível no início), atingiu o clímax com o diagnóstico do oncologista. Segundo o doutor Otto Sievert, células neoplásticas se desprenderam do tumor mamário, causando metástase no pulmão esquerdo e no cérebro. O médico estimou, com uma voz serena (e insuportavelmente paterna), a sobrevida de Rapunzel entre seis e dez meses. Sessões de quimioterapia e radioterapia constavam no intragável cardápio.

A bruxa tinha prenome, nome e sobrenome: carcinoma ductal invasivo. Não possuía rosto, verruga no nariz, dentes podres e risada estridente, mas ainda assim lançava seus feitiços, com eficiência caótica, no plano celular.

Rapunzel, com um esgar de sorriso que lembrava uma careta, perguntou a si mesma se algum outro personagem dos contos de fada viveria, assim como ela, uma existência às avessas. Quem sabe haveria uma bela adormecida insone, um Peter Pan idoso, ou um príncipe que, ao ser beijado, virou sapo?

Antes que seu longo cabelo começasse a cair em tufos, Rapunzel decidiu assumir o controle: pediu a Flora, sua cabeleireira e fada madrinha, que cortasse cada longo fio, desde a raiz. Doou inacreditáveis três quilos de cabelo à rede feminina de combate ao câncer. Desde então, passou a usar lenços da grife Scarf Me, acompanhados de uma sedosa trança multicolorida. Rapunzel calva, mas fashion! (e solteira: Antônio Ramos, seu namorado tricófilo, “pedira um tempo”).

E durante seus últimos meses de vida, Rapunzel manteve distância da torre do desespero. Sua força interior não foi descoberta, mas escolhida. Escolho ser feliz! Só por hoje, multiplicado por seis a dez meses!

Certa feita, Flora lhe dissera que há muitas paredes invisíveis a dividirem a arte do existir. Rapunzel, que, à época, dera pouca atenção às palavras da madrinha, agora não apenas sentia uma dessas paredes, como nela vislumbrava a aura de uma porta entreaberta. Assim que o feitiço da bruxa estivesse completo, tal porta se escancararia. Blumenau, sua casa extralivro desde que migrara da Alemanha, em 1850, agora também ficaria para trás. Rapunzel podia jurar que, do outro lado da etérea porta, Jacob e Wilhelm Grimm a aguardavam para lhe darem as boas vindas.

Numa chuvosa tarde de domingo - sete meses e dois dias após o diagnóstico-, algum incauto poderia afirmar que o “para sempre” da história de Rapunzel alcançou a última página, que a Bruxa Carcinoma, por fim, vencera. Mas Flora sabia a verdade. Enquanto jogava as cinzas de sua afilhada no mar sem ondas da praia de Zimbros, ouvia um fraco ressonar emanando das páginas do livro que trazia na sua bolsa: Rapunzel apenas retornou ao mundo das letras, para dormir profundamente até ser acordada pela voz de uma criança.


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