Era um garoto que como eu amava os Beatles, e os Rolling Stones.
 



Contos

Era um garoto que como eu amava os Beatles, e os Rolling Stones.

Gilberto Pereira Biscola




Os disparos haviam cessado. Os gritos dos inimigos ficaram para trás, mas, os dois soldados continuavam sua fuga, abrindo caminho em meio à selva fechada. A chuva incessante não abrandava o calor insuportável, pelo contrário, se constituía em mais um obstáculo a ser transposto na selva vietnamita. Fadigados, se ocultaram em meio à relva, num ponto mais ou menos seguro, enquanto aguardavam a chegada do helicóptero que ia resgatá-los. Eram muito jovens, estavam apavorados, foram os únicos sobreviventes de um confronto com o pelotão inimigo. Nessa altura, Matt, um dos soldados, sabia que a chance de voltar vivo era pequena. Cerrou os dentes quando Chris, seu companheiro de farda, examinou o ferimento causado pelos estilhaços lançados por uma granada.

─ Está bem feio, não é mesmo? ─ perguntou Matt num esgar de dor.

─ Não está tão mal, vou tentar estancar o sangramento─ respondeu sem muita convicção. Ambos sabiam que se ajuda não chegasse logo, ele iria morrer.

─ Como fui parar nesse inferno? ─ se perguntou Matt.
Enquanto seu amigo cuidava do ferimento, deixou um fluxo de lembranças o guiarem rumo ao passado.

Matt foi transportado novamente para o ano de 1968, em sua residência em Princeton, quando preenchia seu tempo com garotas, estudos e sua paixão pelo rock, em especial pelos Beatles e pelos Stones. Naqueles dias, passava horas trancado em seu quarto, cercado por seus heróis “Hendrix, Lennon, Mccartney, Jagger e Morrison”, que imortalizados em pôsteres, apreciavam o show particular que Matt realizava com sua Les Paul, recém-adquirida com o dinheiro ganho em inúmeros trabalhos de verão. Atacava os acordes de “STREET FIGHTING MAN”, quando foi interrompido pelos gritos de sua mãe, já estava acostumado, ela sempre pedia para ele parar, não entendia que o rock era a nova língua dos jovens, quando ele tocava se sentia livre de tudo.

Dessa vez, no entanto, ela pedia para ele descer, e, pelo tom de sua voz, achou que era algo importante. Seu primeiro pensamento foi que Alison, uma garota bonitinha que vinha cortejando há tempos, finalmente cedera a seus pedidos e estava ali embaixo concordando com um encontro. E porque não? Não era nenhum James Dean, mas no auge de seus 17 anos, era bem aceito pelas garotas, tinha longos cabelos loiros ,algo que elas adoravam, tocava guitarra, era inteligente e carismático, um bom rapaz. Desceu correndo as escadas, mas tudo o que avistou foi a figura estática da mãe, trêmula, com uma carta na mão, ambos sabiam bem do que se tratava. Viu as lágrimas descerem pelo rosto da mãe e odiou Nixon por isso.

Na noite que antecedeu sua partida, cortou com dor seu cabelo, e quebrou a guitarra na parede após tocar o hino nacional, tal como seus ídolos faziam.

Agora estava gravemente ferido, junto de seu amigo, a espera de um resgate que se tardasse a chegar, lhe custaria a vida. Sabiam que os vietcongs estavam por perto, seus ouvidos treinados captaram sons quase imperceptíveis de botas se arrastando no terreno lodoso, se entreolharam em silêncio, examinaram a munição de suas Ak 47, e aguardaram o inevitável confronto.

Segundos depois, um leve farfalhar de folhas, anunciou a chegada de uns 12 soldados vietnamitas.

Seus olhos já estavam turvos quando viu seu amigo ser atingido por golpes de baionetas, e antes que sua vez chegasse ,pensou no mundo que deixava para trás, nos amigos, pensou em seus pais recebendo medalhas de honra do Congresso, no recôndito de sua mente ouviu Hendrix dizer:
“Quando o poder do amor se sobrepuser ao amor ao poder, o mundo conhecerá a paz”.

Foram seus últimos pensamentos antes de seus olhos se fecharem para sempre na selva vietnamita.


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