Além das palavras
 



Contos

Além das palavras

Danielle Gasparini




Dentre os quase dez milhões de passageiros transportados nos ônibus da cidade de São Paulo todos os dias, você vê operários, playboys, manos, minas, pretos, brancos, loiros ou morenos, albinos, afro albinos, moicanos, carecas, médicas, enfermeiros, engenheiros, domadores de leão, adestradores de poodles, professores de etiqueta, noivos tirando fotos para o casamento, casais terminando relacionamentos, pessoas narrando acontecimentos íntimos no telefone celular, entregadores de flores, vendedores de planos funerários, garis, pessoas jogando papel no chão, colando chiclete no teto e passando meleca no vidro, deficientes físicos e mentais de toda sorte, vendedores de bala, de caneta, de brinquedo, de pamonha, de peixe e de mãe, domésticas reclamando das patroas, patroas reclamando das domésticas, pessoas carregando baldes, melancias, micro-ondas e pintinhos tingidos de rosa choque, adolescentes falando em dialeto próprio e ouvindo, em volume máximo, as últimas novidades do funk carioca e do sertanejo universitário. Recordo-me de ter lido em algum lugar que um tubarão morto foi encontrado no metrô de Nova York. Uma descoberta desse tipo, em algum ônibus paulista, não me surpreenderia – se fosse um jacaré gigante, turquesa, com bolinhas laranjas e sete patas, saído das águas do Rio Pinheiros, o fato talvez merecesse alguma atenção.
No meio desse caos, conheci um passageiro que em nada contribuía para toda essa confusão e sonoridade. Ainda assim, ele foi o personagem da história mais inusitada já presenciada por mim em um coletivo. Passo a dividi-la com você.
...

- Bom dia, seu Rolando!

Não faço ideia de como seu Xerxes, o velho cobrador, sabia o nome dele, se é que realmente sabia. É possível que tenha inventado. Afinal, em três anos de viagens naquele ônibus, que saía do Terminal Grajaú em direção à Praça da Sé, eu nunca ouvi a voz daquele passageiro. Jamais o vi retribuir o cumprimento de seu Xerxes. Soltava somente um murmúrio, que poderia significar tanto um “Bom dia” quanto um “Me deixa em paz”. O cobrador devia acreditar na primeira hipótese, pois nunca deixou de cumprimentá-lo e sorrir.

O nome, verdadeiro ou não, combinava com nosso herói. Era tão antiquado quanto ele. Observando atentamente seu Rolando, acredito que ele devia ter uns quarenta e cinco anos, mas aparentava muito mais, graças à expressão severa e aos trajes um tanto anacrônicos e desalinhados. Blusa social sintética, gravata descombinada, sapato social descascado, óculos de lentes grossas. Sempre carregava algum livro antigo, grande, que na maioria das casas só serviria para escorar pé de mesa ou exibir para as visitas. Imaginava que fosse bibliotecário, escriturário, algum operário das letras e do passado, desprendido do mundo das aparências.

Passada a catraca, seu Rolando dirigia-se ao banco dele. Sim, dele. Dia após dia, ele se sentava no mesmo lugar, uma poltrona individual, próxima à porta do meio. O ônibus não ficava muito cheio naquele horário, perto do almoço, e os passageiros eram basicamente os mesmos. A convivência diária e a sisudez de seu Rolando serviam como título de propriedade.
Ele passava a viagem inteira lendo, imune às conversas e ao mundo ao seu redor. A impressão que transmitia era a de que nada que pudesse acontecer seria mais importante que o seu livro ou mais interessante que a sua própria vida.

Nós descíamos juntos no ponto final. Eu partia para a São Francisco e ele tomava o rumo oposto. Nunca esbarrei nele nos arredores, nem peguei com ele o ônibus da volta. Eu gostava de imaginar, às sextas-feiras, que o encontraria tomando cerveja em um dos vários botecos da região, aproveitando o happy hour e ouvindo um pagodinho. A ideia sempre me fazia sorrir.

Tudo começou a mudar numa segunda-feira ensolarada de novembro.

Naquele dia, entrei no ônibus, sonolento, passei meu bilhete no leitor e me sentei. Estava olhando para o nada quando seu Rolando entrou, se dirigiu à roleta e parou subitamente. Só então notei que seu Xerxes não estava lá. Seu lugar era ocupado por um jovem com dreadlocks e fones de ouvido enormes, de cor verde limão. Seu Rolando ainda hesitou um pouco, mas passou o bilhete e tomou o rumo de praxe. Sentado, deu mais uma olhada para o cobrador e, em seguida, abriu seu livro do dia.
O ônibus partiu.

Alguns pontos depois, Eliane, uma senhorinha simpática e escandalosa, já velha conhecida de todos, entrou no veículo.

- Uai, minha gente! Cadê o seu Xerxes?

O jovem cobrador não lhe deu atenção. Foi o motorista quem respondeu:

- Seu Xerxes teve um derrame na madrugada de sábado para domingo. A neta dele passou ontem na garagem para avisar o pessoal. Está no hospital. A família acha que ele não volta a trabalhar. O rapazinho simpático aí é só um quebra galho. Amanhã deve vir um cobrador novo.

Todos permaneceram em silêncio. Xerxes era como uma instituição local. Não havia quem não gostasse do velhinho doce e trabalhador - salvo, possivelmente, o seu Rolando, que não emitia juízo de opinião, nem deixava escapar qualquer expressão que nos permitisse imaginar o que pensava.

No dia seguinte, realmente havia um novo cobrador, ou melhor, uma nova cobradora. Usava crachá. Eu nunca tinha visto cobrador usando crachá antes. Seu nome era Maria. Cumprimentei-a, e ela respondeu com um belo sorriso, que me impeliu a sorrir de volta. Gostei dela de imediato. Na casa dos quarenta anos, tinha cabelos castanho-claros, na altura dos ombros, era magra e um pouco baixinha. Uma mulher bonita.

Pouco depois, seu Rolando entrou no ônibus e dirigiu-se à catraca. Tirou o bilhete do bolso e, quando ia passá-lo no leitor, avistou a nova cobradora. Congelou por alguns segundos, após os quais enrubesceu. Maria lançou-lhe um olhar intrigado, seguido de um sorriso tímido. Seu Rolando deu um suspiro, abaixou a cabeça e passou o bilhete no leitor, bem rápido. Ato contínuo, fugiu para o banco dele. Durante a viagem, abriu e fechou seu livro várias vezes, mas não conseguiu completar a leitura. Olhava de soslaio a nova cobradora, visivelmente incomodado. Quando chegamos ao ponto final, ele desceu muito mais depressa que o habitual.

Na quarta-feira, seu Rolando não apareceu.
Na quinta, ele retornou, e daí pra frente as mudanças foram cada vez mais intensas. Trajava calças jeans e uma camisa pólo. O sapato social destoava, mas a melhora em sua aparência era visível. Entrou no ônibus mais pausadamente, passou o bilhete no visor e... Surpresa das surpresas: sorriu para a cobradora. Maria sorriu de volta. Em seguida, Rolando foi ocupar seu posto e abriu o livro que carregava. Mas novamente ele não leu. Continuava observando Maria furtivamente. Em alguns momentos, ela notou e desviou o olhar.

Na sexta-feira, ele sorriu novamente. A resposta de Maria foi um sorriso mais longo e doce que o do dia anterior. Quando passou por mim em direção a seu banco, reparei que Rolando não carregava um tijolo como de costume, mas um livrinho azul. Fiquei curioso. Quando descemos do ônibus, tive o cuidado de bisbilhotar e consegui ver o título: “Como fazer amigos e influenciar pessoas”.

Na segunda-feira, novas mudanças. Seu Rolando não pagou a passagem usando bilhete, como de costume. Pagou em dinheiro. Quando foi entregar a quantia, seus dedos tocaram de leve os dedos de Maria. Ambos coraram. Fiquei chocado ao perceber que seu Rolando não trouxera livro algum. Ao invés de ler, ficou olhando ao redor. Parecia estar reparando, pela primeira vez, o que faziam os demais passageiros, e tentando identificar o que eles liam.

Na terça-feira, novo pagamento em dinheiro, novo toque, novos sorrisos e um certo constrangimento adolescente. Eu já encarava a situação como uma novela, aguardando ansiosamente os próximos capítulos. Naquele dia, ele carregava um livro preto, e contive o riso ao ler o título: “Crepúsculo”.
Minha intuição do dia anterior estava correta. Nos últimos meses, quase todas as mulheres no ônibus (ou melhor, de todos os ônibus, de todas as cidades do Brasil, de acordo com os relatos que chegaram a mim) carregaram algum dos livros desta série. Um fenômeno inexplicável! Seria alucinação coletiva?

Na quarta, na quinta e na sexta-feira, Rolando e Maria já tinham um ritual silencioso e bem estabelecido de alegria e timidez ao se encontrarem.
Eu não era o único a perceber.
Naqueles três dias, seu Rolando não portava livros, mas sim revistas femininas. E na sexta-feira, quase caí da cadeira quando vi que, ao invés de ocupar seu banco, Rolando sentou-se bem na frente, a apenas duas cadeiras de distância de Maria.

- Eu não acredito que o seu Rolando tá gostando dela! O que será que ele viu nessa bruaca aí? – reclamou Eliane, sentando-se ao meu lado, sua voz um tanto indignada, revelando sentimentos ocultos. Levantei os ombros. Eu realmente não imaginava. Estava mais curioso é para saber o que diabos ela vira nele.

Uma nova semana se iniciou.

Naquele dia, Seu Rolando entrou e se dirigiu à roleta. Não pagou em dinheiro como vinha fazendo - voltou a usar o bilhete eletrônico. Trocou um olhar rápido com Maria, um pequeno sorriso, abaixou a cabeça e se dirigiu rapidamente ao último banco do ônibus. Maria ficou desconcertada. Parecia haver lágrimas em seus olhos.

Só ao descer do ônibus, ao lado de Rolando, entendi o que ocorreu. O título do livro do dia era “Cinquenta Tons de Cinza”. Dessa vez eu não consegui conter as gargalhadas, ou melhor, só as segurei até que ele se distanciasse de mim ao sair do veículo. Havia sangue naquelas veias!
Para minha decepção, e visível tristeza de Maria, seu Rolando não apareceu na terça. Nem na quarta.
Nem na quinta.
Na sexta-feira, o suspense dos dias anteriores foi recompensado.

Seu Rolando entrou no ônibus trajando um terno azul, sapatos reluzentes, camisa social branca – tudo moderno e alinhado. Usava óculos novos, daquele tipo sem aro. Rejuvenesceu dez anos, no mínimo. Trazia um buquê de rosas vermelhas. Deixou que todos os demais passageiros passassem à frente.
Para a sorte de Maria, atualmente quase todo mundo usa o bilhete eletrônico, porque se alguém pagasse em dinheiro, creio que ela não conseguiria receber e muito menos calcular o troco, de tanto que tremia. Finalmente, todos ocuparam seus lugares, seja sentados, seja de pé. Os olhares estavam fixos no casal.

Seu Rolando tremia e suava. Ficou parado por alguns segundos, como se estivesse juntando forças, e finalmente se dirigiu à roleta. Pagou em dinheiro a passagem. Quando Maria foi pegar a quantia, ele segurou delicadamente suas mãos e alisou seus dedos. Sorriu e entregou as flores.
Foi a primeira vez que ouvi a voz dele. Era bonita.

- Minha querida. Será que poderia te dizer algumas palavras?

Maria não estava vermelha, estava roxa. Assentiu com a cabeça.
Seu Rolando tirou uma folha do bolso da frente do paletó e passou a ler o discurso que segue. O momento era mágico. Posso jurar que não me esqueci de palavra alguma.

- Minha querida. Há muitos anos, feri e fui ferido por palavras. Desde então, passei a achar que nesse mundo se fala demais. Fiz um voto de silêncio, que por quase duas décadas observei. Mas na primeira vez que a vi, soube que não poderia mais sustentar minha decisão. Pior. Compreendi que, na verdade, meu voto não havia sido fruto de qualquer ímpeto virtuoso, mas sim do medo de me machucar novamente. Era um voto de luto. Ao invés de me tornar alguém melhor, só fez com que eu me transformasse em um miserável.

Ele parou, tirou um lenço do bolso e enxugou levemente o suor da testa. Em seguida, continuou:

- Desde aquela terça-feira abençoada, minha vida mudou. Você me trouxe de volta. No início, fiquei atordoado. Não consegui ler, trabalhar. Tive febre. Queria entender o ocorrido, o motivo de tanto assombro. Compreender a razão pela qual, entre tantas mulheres que cruzaram meu caminho, só uma me causou esse efeito. Tentei esmiuçar o meu desejo, sem sucesso, pois o amor que sinto – repito, o amor – nada tem de racional. Ele simplesmente é. Quando entendi isso, minha angústia inicial cessou.

Ele silenciou por mais alguns segundos, e em seguida soltou pesadamente o ar.

- Passei a sentir um desejo imenso de me comunicar. Eu nunca havia percebido como estava carente de contato com o mundo exterior, após tantos anos afundado em livros e em meus próprios pensamentos. Só que não sabia mais como. Não fazia ideia do que pensavam as pessoas, do que ocupava a cabeça das mulheres. Tentei desesperadamente adquirir algum conhecimento que pudesse me ajudar na tarefa de chegar até você. No processo, percebi que não poderia enquadrá-la nos modelos femininos retratados nos livros e revistas que pude pesquisar, tão simplistas e caricatos. Não.
Você é diferente, eu sei – não sei explicar como, mas sei. Você é única. Desejo imensamente conhecê-la e compartilhar da sua vida, se me permitir.
Ele abaixou o papel, olhou diretamente para os olhos de Maria, e terminou, agora sem ler e sem tremer.

- Eu perguntaria isso hoje – posso compartilhar a vida com você? Perguntaria, porque sei que é o que quero. Mas sei que soaria insano. Você não me conhece. Então te pergunto, apenas, se me daria a chance de um café.

Por alguns segundos, o ônibus silenciou. O veículo chegou a parar até que uma saraivada de buzinas tirou do transe o motorista.

Maria enfim se moveu. Tirou do bolso uma pequena caderneta vermelha, com a capa florida, pegou uma caneta,e pos-se a escrever freneticamente. Terminada a tarefa, tirou a folha e a entregou a seu Rolando, que leu e abriu um largo sorriso.
Eles se olharam, deram as mãos. Em seguida, se beijaram longamente. Todos aplaudiram. Naquele momento, não pude evitar de pensar que toda história de amor é um pouco clichê. Pensando bem, um pouco não, um bocado!

...

Minha curiosidade nunca foi tão grande.
Vi que, quando eles se beijaram, a nota de Maria caiu no chão. Sinalizei para Eliane, que estava bem perto da roleta e entendeu perfeitamente o que eu queria, dando um jeito de pegar o papel. Ela levantou, me entregou discretamente a folha e desceu no ponto seguinte, com lágrimas nos olhos.
A nota dizia o seguinte:

“Meu querido. Desde que o vi, sonhei com um momento assim. Assim como você, minha vida mudou assim que o vi. Era inexplicável: eu sabia que você era a pessoa certa. Ao mesmo tempo, temia sua reação quando conhecesse minha realidade. Sou surda e muda desde que nasci. Mas agora meu medo acabou. Havia, como sempre sonhei, alguém no mundo reservado para mim, talhado para o silêncio. Sei ler lábios. Nunca na vida alguém me disse tão belas palavras. Minha resposta não poderia ser outra. Sim, para as duas perguntas.”

Depois daquele dia, Maria e seu Rolando não apareceram mais no ônibus, nem seu Rolando. Meses se passaram. Eu me formei. Seu Xerxes, contrariando todos os prognósticos, voltou ao trabalho, sorridente como nunca, falando um pouco enrolado e manco de uma perna. Eliane arrumou um namorado, Manoel, que conheceu no próprio ônibus.
Na última sexta-feira, quando saí do trabalho, vi Rolando e Maria, de mãos dadas, sentados num boteco na Praça da Sé. Um grupo improvisado tocava pagode. Seu Rolando, sorrindo, tamborilava os dedos na mesa, acompanhando o ritmo.


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