Olhos Verdes
 



Contos

Olhos Verdes

Emerson Oliveira



De forma inesperada me vi com aquela fotografia nas mãos. Sei que tenho saudades, que de alguma forma ainda amo estes olhos verdes e a maciez desta pele, destes cabelos. Mas incansavelmente Clara fazia planos e mais planos. Ela tinha o seu e o nosso futuro muito bem traçados, o que me incomodava. Tenho para mim que devemos levar em consideração a contingência dos fatos e nada pode ser necessário. O que tomamos por obrigação limita nossa liberdade, compromete nossa mudança de direção.

Eu a amava, isto é certo, mas não mais do que tantas outras que amei. Queria estar com ela tanto quanto ir ao Chile, a França ou a um bar.

Há uma semana ela me ligou. Disse que em dois dias iríamos ao aniversário de sua amiga. Relutei. Disse que não iria. Em vão. Era como se ela não ouvisse e continuou a insistir. Foi assim que me decidi. Eu não iria. E ela, muito menos.

Na manhã seguinte ao convite, saí bem cedo para providenciar alguns preparativos. Tinha que comprar: uma caixa não muito grande, mas que tivesse boas alças, e um lençol de qualquer cor desde que fosse escura. Adquiri os objetos e voltei para casa. De lá, liguei para Clara e pedi para que antes do aniversário passasse em casa com duas horas de antecedência. Ela concordou.

No intervalo até a sua chegada, preparei um bom chá e voltei a ler Crime e castigo. Lembro que li a tarde inteira, exceto as poucas vezes que levantei para pegar mais chá. Passada algumas horas, um perfume muito conhecido invadiu minha sala. Era o anúncio de que Clara havia chegado. Eu a recebi com um leve beijo, como de costume.

Conversamos trivialidades sobre seu dia e ela perguntou sobre o meu. Tirou o xale vermelho e jogou sobre o sofá. Levei-a até a cozinha, caminho que conhecia bem. Sentou-se à mesa e gargalhava como sempre. Servi-lhe chá e ela fez qualquer comentário que não entendi, enquanto seguia amarrando o cabelo em um rabo de cavalo bem ao alto da cabeça. Eu, em particular, adorava aquele colo alvo que circundava seu pescoço esguio. Como ficava linda com aquele penteado. Era lindo aquele corpo tão pequeno, frágil.

Aproximei-me dela e envolvi seu pescoço com minhas mãos. Poderia enforcá-la, pensei. Confesso que me senti tentado, esfreguei com força seu pescoço até o momento em que ela se retesou toda, e suas mãos, se cravaram firmes na borda da mesa. Não. Não seria daquela forma. Aliviei a pressão das mãos e ela voltou a relaxar sobre a cadeira.

Seus olhos me inquiriam de um modo assustado, sua voz, se negava a emitir qualquer som. Senti que seu medo pairava no ar, lhe ofereci mais chá e ela, com a mão trêmula, estendeu a xícara para que completasse. Como seu pavor era latente, por alguns minutos senti certo prazer em tê-la totalmente dominada, escrava de mim e de seu próprio medo.

Aquele olhar em verde refletia, e ao mesmo tempo era um convite para um mergulho em sua alma. Seu rosto transpirava como em uma manhã de sol e o meu coração, batia exultante. Quanto mais aterrorizada, mais minha. Ora, ora! É uma escolha perfeitamente inteligente a da morte. E a vida é apenas o desenvolvimento no tempo e no espaço.

Eu e o seu pavor passamos a brincar de gato e rato. Eu a persegui-lo, e ele, a se esconder aqui e ali. Saltava do olhar para as mãos, das mãos para o corpo, e do corpo para os objetos: mesa, cadeira e retornava para ela. Mas quando procurava nela, o medo saltava para as coisas. Se me concentrasse no sujeito, ele voava para o objeto; se, por conseguinte procurasse no objeto ele saltava para o sujeito. Furtivamente escondido aqui e ali, sempre a me olhar de esguelha. Fiquei neste embate metafísico por um bom tempo, até que me decidi. Chegou a hora, ela não iria ao aniversário.

Fui até a pia, lavei minhas mãos e sequei-as demoradamente. Clara conversava em um tom muito alto, o que caracterizava o seu nervosismo. Eu, em contrapartida, tomei mais chá, e de frente para ela, de modo que não pudesse perceber, levei minha mão até a gaveta. Puxei uma faca e a coloquei nas costa rente ao cinto da calça.

Com as mãos livres, forcei-as uma na outra para que Clara visse que estavam desimpedidas. Tomei mais chá e me dirigi para a sala que estava do lado oposto de minha amada. Ela, inocente, não se virou, o que para mim ficou ainda mais fácil. Caminhei devagar em sua direção, ficando bem atrás de seu corpo. Ela estava sentada, eu podia visualizar todo o seu corpo, pequeno, lindo.

Meus olhos se prenderam exatamente na cavidade entre a clavícula e a base do pescoço. Naquele momento seu corpo reagiu. Entendi como uma autorização para meu feito. Ela juntara suas pequenas mãos e as deslizou da altura da testa até o colo alvo, baixou a voz e suspirou profundamente.

Eu entendi o aviso do acaso e me precipitei. Abri o passo com a perna direita ficando muito próximo da cadeira onde ela estava. Com a mão destra, peguei a faca que havia escondido no cinto da calça e me curvei sobre Clara, segurando-a firme na base do queixo e forçando sua cabeça contra meu corpo. Foi aí que arremeti a faca na diagonal de forma que ela passasse muito próxima à clavícula direita. Quando o objeto, agora tão mortal, encontrou a carne, Clara estremeceu de uma forma que eu nunca vira antes. Mantive sua cabeça ainda presa ao meu corpo e vi que suas mãos estavam cravadas na cadeira.

A arma branca que até o meio se introduzira, com mais um esforço chegou até o cabo, o limite de sua lâmina. Clara gemeu e arqueou a cabeça para trás. Seus olhos bem abertos foram se enchendo lentamente de uma lágrima verde, muito verde. Encheram, encheram e enfim transbordaram. Sua alma escorria como musgo pelo seu rosto e na mesma proporção seu corpo se aquietava. Era o fim de um aniversário.

Eu beijei-lhe a testa lentamente. Retirei a faca que cedeu espaço para um corte de cinco centímetros que borbulhava. Era a última ação de seus pulmões.

Deitei seu corpo ao chão, abri-lhe pernas e braços contemplando a cena enquanto limpava as mãos. Por um momento titubeie. Fiquei entre voltar a ler ou limpar a cozinha. A última prevaleceu.

Coloquei para tocar Soul to Squeeze do Red Hot Chili Peppers e dei início à limpeza. Não sei por que comecei pelos pés. Talvez, seja o meu inconsciente esgotando qualquer possibilidade dela ir ao aniversário. Optei por cortar tão somente nos ligamentos de seu corpo. Cortei pés, joelhos e as coxas bem próximas a virilha. Os braços. Nas mãos, cotovelos e ombros.

Depositei tudo dentro da caixa que comprei. Por último, coloquei seu tronco e a cabeça. A cabeça ainda tinha, em suas faces, lágrimas escorridas. Sequei-as com o lençol escuro e embrulhei tudo. Lacrei a caixa e respirei aliviado. Terminara a limpeza.


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