Rotina Inesperada
 



Contos

Rotina Inesperada

Jailson Luiz Jablonski


Meu escolar é o único que passa na Vila das Flores recolhendo os alunos e levando os para a escola. Com isso, eu sou o motorista mais feliz da cidade de Roseiral, pois sou eu que levo esperança para o Brasil, que é o nome da escola dos estudantes.

A Vila das Flores é um pequeno lugar no interior de Roseiral, onde moram poucos habitantes. Lá ouvimos os rouxinóis cantando logo após o sol nascer e também as risadas das crianças brincando nas ruas. Quando chove, escutamos os pingos que batem nos nossos telhados, sentimos o cheiro de terra molhada, sentimos o cheiro das flores que enfeitam os canteiros da Vila e, ainda, sentimos toda a paz que é transmitida pelos seus habitantes. Na verdade, somos sensitivos.

Era uma manhã de inverno como outra qualquer, gelada. Acordei cedo e fui ao banheiro. Quando entrei na cozinha, senti o cheiro de café que minha esposa fazia. Tomei meu café. Fui até a garagem onde estava o meio de transporte com o qual eu trabalho: o escolar. Abri a porta e entrei. Na primeira tentativa de ligar, o escolar não funcionou. Estranhei. Somente na segunda ou na terceira tentativa ele trabalhou normalmente. Fiquei apreensivo, mas fui buscar as crianças porque eu devia levá-las para a escola.

Em cada esquina que eu passava, parava o ônibus. Abria a porta. Cumprimentava cada criança com um sorriso e elas, cada uma de sua maneira, abria um sorriso e retornava o cumprimento. Apesar disso, eu ainda estava nervoso com o problema que havia no escolar.

Dentro do microônibus as crianças estavam felizes. Umas cantando, outras conversando e outras olhando a paisagem que uma manhã de inverno proporciona, aquela fumaça subindo ao céu, enquanto o sol toca o verde esbranquiçado por causa da geada. Lindo. Mas nem todos estavam felizes. Notei que havia um menino com uma face preocupada, pensativa, parecia estar com o pensamento muito longe. Bem longe.

No caminho para a escola, nós tínhamos que passar por uma ponte de um rio grande e largo. As crianças não gostavam daquela passagem e nem eu. Chegando perto da ponte senti um frio na barriga e, no momento em que estávamos passando pela ponte, caímos no rio. Não recordo como, só lembro que quando eu saí da água, já na beira, vi o microônibus afundar. Nesse momento olhei para a água e vi o menino, aquele do pensamento longe, mergulhando para salvar os seus amigos.

Mergulhou uma vez e trouxe Camila para a beira do rio. Eu ajudei ela a sair da água. Mergulhou de novo e voltou com o Pedro. Depois, com o Carlos. Em seguida trouxe a Leila. E eu na beira do rio sem poder fazer nada, pois não sei nadar, eu só observava aquele menino retirando as crianças da água. Um ato heroico.

Ele mergulhou de novo, as borbulhas subiram, a água se mexeu, mas ele não voltou. De repente as borbulhas e a água pararam, o rio se acalmou e parecia que nada tinha acontecido. Num piscar de olhos o corpo sobe, sem vida, sem cor, sem ar. Sim. O menino que não brincou, não cantou no ônibus hoje cedo e salvou aquelas crianças estava morto.


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