Um crime em três versões
 



Contos

Um crime em três versões

Melina Ferrary


Havia dias que pairava aquela dúvida e decidi que naquele dia tomaria a história a limpo. Por precaução, levei comigo a arma calibre 32. Fiquei à espera da saída dela. E lá estava ela... e ele (o mesmo daquela foto), com o braço envolto em sua cintura. Aquela cena era demais para mim. Ana me viu do outro lado da rua e imediatamente veio ao meu encontro. Ele se mandou. Ela tentou se explicar, mas eu já não ouvia mais. Depois de tantos planos, o que aquela vadia pensava? Nós iríamos se casar! Quando finalmente reparei a última aluna do cursinho passar e Ana terminou de gesticular, no ímpeto, saquei a arma e terminei com tudo aquilo. O que aconteceu logo depois, nem lembro mais, só sei que quando me dei conta, já estava em casa, vazia, com a arma ainda em punho e me acabando de tanto chorar.

***

Era um dia como tantos outros. A aula cansativa, não via a hora de acabar e me mandar para casa. Estava morrendo de fome. Já havia me despedido da minha colega e tomado o rumo de casa, quando ouvi do outro lado da rua algum tipo de discussão. Na verdade, não havia discussão, mas apenas uma moça chorando, implorando ao que parecia seu namorado. A medida em que fui me aproximando, pois estavam na rota do caminho de casa, identifiquei a moça como minha colega de cursinho. Coitada. Lembro bem que nos intervalos falava do tal namorado, que iriam se casar e tal. Era muito amiga de Marcelo, um colega muito querido e homossexual assumido. Não quis me intrometer na briga (dizem que na briga de marido e mulher não se mete a colher) e passei sem desviar o olhar. Quando já estava quase na esquina, após um intervalo breve de silêncio, ouvi o que parecia dois tiros. Que horror! Vi Ana caída no chão e seu noivo a correr em disparada. Não consegui entender nada. Como Ana poderia ter se envolvido com alguém assim? Logo ela, que me parecia ser uma pessoa tão boa? Esse mundo é mesmo cão.

***

Naquele dia Caio iria conferir a história que Ivana havia contado. Ivana era sua amiga e estava frequentando o mesmo cursinho de Ana. Ela disse que sua namorada e Marcelinho estavam saindo e passavam o tempo no cursinho juntos trocando carícias, como aquela revelada na foto. A foto mostrava os dois juntos, de mãos dadas na hora do intervalo. Mas será? Aquela cena poderia ser de qualquer momento descontraído entre dois amigos. Por outro lado, Ivana já demonstrara em outras ocasiões interesses por Caio que, neste caso sim, iriam além de uma amizade. Mas Caio não enxergava além do seu ciúme doentio por Ana. Foi ao encontro de sua namorada na saída do cursinho, mas antes não esqueceu de levar sua arma. Na saída, ele viu os dois juntos e não quis saber das razões de sua amada. Também sequer notou que Ivana, à espreita, assistia toda a cena, como se esperasse por um “grand finale”. Apesar dos esforços de Ana, Caio não ouviu uma sequer palavra. Esperou ficarem sozinhos e disparou dois tiros à queima roupa. Ivana não se moveu, como se estivesse se deliciando com a possibilidade de, finalmente, ele ser somente dela.


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Comentários:

Adorei ler, escrever o crime em tres verses diferentes, excelente idia. Um texto que mostra bem o resultado do cime doentio, de um relacionamento onde a posse vigora. Quando a pessoa deixa-se levar pelo impulso, pela paixo, no pensa, age. Muitas vezes, depois de uma cena dessas , comum ocorrer um suicidio.
No enredo, quatro personagens, os amigos do cursinho, o assassino, e ivana, a que colocou lenha na fogueira. Parabns

Magaly Andriotti fernandes, Porto Alegre, Rio Grande do Su 02/09/2018 - 19:53

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