Refúgio
 



Contos

Refúgio

Simone Bauer


Descobri recentemente que, entre as personalidades que jamais existiram, a que ocupa o primeiro lugar é o “homem de Marlboro”. Lembra? Era aquela figura máscula, cavalgando solitária por entre os campos e montanhas do meio-oeste americano, personagem da campanha do cigarro, e que transmitia aquela sensação de que se fumássemos a mesma marca poderíamos desfrutar um pouco daquela vida de aventura e em contato com a natureza. Aliás, as campanhas publicitárias de cigarrros sempre traduziram o anseio humano pela vida ao ar livre, pela aventura, daí o imenso sucesso que alcançaram. Quem não recorda os esportes radicais por água, ar ou terra, invocadas nos anúncios de Hollywood (“ao sucesso”) ou LM (“te encontro na 66”)? Ou aqueles locados em montanhas nevadas, alpinistas e esquiadores que faziam merecida pausa para dar umas tragadas e ganhar fôlego? Mais longinquamente, o próprio Gerson – atleta tricampeão de 70 – gostava - em paralelo infeliz com a linguagem futebolística - de “levar vantagem”, referindo-se ao custo/benefício do LS que anunciava mas que acabou se tornando símbolo do que há de pior no brasileiro, forjando-se a famosa “Lei de Gerson”. Triste sina do ex-atleta: vender um produto que em tudo se opõe aos benefícios preconizados pelo esporte e, de quebra, tornar-se o emblema do famoso “jeitinho brasileiro”. E olha que, nos idos dos anos setenta, fumar ainda não fazia mal.

No colégio, no ensino médio, a professora de ciências, com seu vestido de crochê, ficava no fundo da sala, pitando.

Na faculdade – que felicidade – o cigarro era permitido na sala de aula, não só para os professores mas – coisa inacreditável - para os próprios alunos. Era aquela fumaceira na sala, nos corredores, no saguão... E ninguém reclamava!

Varar noites estudando sem a companhia de uma carteira de Marlboro, Hollywood ou LM era inconcebível. Inconcebível também era passar a noite na festa – qualquer festa onde houvesse bebida alcóolica – sem voltar para casa e precisar lavar roupa e cabelo no dia seguinte por conta da morrinha que neles se impregnava.

No restaurante se fumava, no teatro se fumava, acho que até no cinema se fumava...

Tempos depois, já trabalhando, existiam as salas dos fumantes e dos não-fumantes, pois, nessa época, já existiam reclamações dos colegas não adeptos.

Difícil mesmo foi quando todos passaram a compartilhar um único recinto...

O politicamente correto escanteou os fumantes inicialmente para os “fumódromos” e, depois, sem qualquer cerimônia, para a rua mesmo. Passamos a protagonizar, de uma forma particular e totalmente século XXI, nosso próprio comercial de cigarros: só em ambientes externos, porém sem glamour. Ouvi dizer que estão pensando em proibir o fumo ao ar livre – parece que já existe legislação nesse sentido nos EUA e no Japão (ou seria na China?), onde os fumantes devem se apertar em cabines, parecidas com banheiros químicos, único lugar público onde lhes é permitido desfrutar do prazer proibido de um cigarrinho.

De qualquer modo, acho que, mesmo que proibam fumar na calçada, não vão nos encontrar aqui no alto.

Me consegue fogo?


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