Só mais um prédio cinzento
 



Contos

Só mais um prédio cinzento

Simone Becker


Maurício vivia em um prédio cinzento próximo aos trilhos do trem. Podia sentir o movimentar dos vagões, o imóvel tremia a sua passagem. Gostaria de morar em outro lugar, mas o seu trabalho de garçom não dava para isso. Aquele prédio até combinava com a cor indefinida, acinzentada, dos seus olhos.Talvez tivesse nascido destinado a viver ali.

A semana estava conturbada, Maurício iria receber uma grana a mais para cobrir o horário noturno de um colega, no entanto o stress e o cansaço se tornaram seus companheiros inevitáveis. Pegava o trem até o trabalho. Estava sempre lotado, geralmente ia em pé. Naquele dia, acordara atrasado, olhou as horas, não dava tempo de comer nada. Saiu correndo, pegou o trem, ficou espremido, mais uma vez, entre os demais passageiros.

Durante a viagem refletia sobre o contraste de sua vida miserável com a dos clientes que servia no restaurante. Fazia mais de um ano que não comprava sapatos novos, o seu relógio de pulso precisava de pilhas, mas não encontrava um minuto livre para ir comprá-las. Sua vida não tinha nada além de trabalho. Talvez uma namorada a deixasse mais interessante, contudo estava sem tempo e nem dinheiro.

Já era noite, no trabalho, corria feito um louco quando, de repente, parou por não conseguir desviar o olhar de uma linda dama que entrava no restaurante. Ela trajava um vestido negro, delicado e sensual que delineava sua cintura. Tinha os cabelos presos em um penteado que exibia a sua nuca nua e macia, provavelmente perfumada com uma essência enlouquecedora que ele não conseguia sentir daquela distancia. A atração foi tão intensa que ele imediatamente a seguiu até a mesa, passando na frente do colega que deveria atendê-la. Serviu a inebriado com o seu perfume, que agora, próximo a ela, podia sentir, era melhor do que havia imaginado.

Voltando para a copa, aos poucos foi despertando daquela grande emoção. Colocou os pés no chão firme. Aquela bela dama não era para homens como ele, sem dinheiro, sem cultura. Relembrava que não tinha tempo sequer para trocar as pilhas do relógio, quem dirá para cuidar de uma rainha como aquela. Seus olhos ficaram aguados, mas era homem e estava trabalhando, deixaria para pensar sozinho, antes de dormir.

Depois do jantar, a mulher lhe fez um sinal, Maurício a atendeu prontamente, ela queria apenas pagar a conta. Ele se demorou para trazer a nota do caixa, fazia isso, para poder tê-la sob seus olhos, só por mais alguns instantes, não devia, mas não sabia parar. A dama pagou, deixou uma boa gorjeta, deveria ser rica, ele se odiou por ter tido aqueles pensamentos, era hora de se colocar no seu lugar de garçom. Baixou os ombros e recolheu os talheres. Percebeu, embaixo do prato, um telefone celular. Lugar estranho para guardar o aparelho. Já ia correndo entregar o telefone à mulher quando encontrou, junto dele, um bilhete com um número e o dizer: Adorei seus olhos, ligue, por favor. Ass: Ana k.


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