Zumbido
 



Contos

Zumbido

Gilson Morais


Olhava fixamente para o relógio de pulso. Havia uma mosca lá dentro. Ela estava parada sobre o número onze. Bateu com o dedo no vidro, mas o inseto o ignorava. Tirou o relógio e o meteu no bolso. No ônibus lotado alguém podia ver aquela coisa asquerosa. O que iam pensar dele?

Olhou para os lados já no escritório, e retirou o objeto do bolso. A intrusa estava agora sobre o doze, mas o onze havia sumido. Essa desgraçada comeu o onze, pensou, e com certeza agora vai continuar com o estrago. E ficou cutucando o relógio, exasperado, tentando imaginar como aquele bicho tinha entrado ali. Tentou abri-lo, mas, fosse por falta de habilidade ou nervosismo, não conseguiu. Escolheu uma gaveta e jogou-o lá dentro.

Aquilo ficou martelando na sua cabeça toda a manhã. Não conseguiu trabalhar direito: rendeu pouco e o pouco que fez não prestou. Perto das onze horas resolveu encarar sua inimiga, mas quando abriu a gaveta uma nuvem de moscas se libertou e zuniu pela sala. Teve a impressão que uma entrara em sua boca e ele ficou tossindo, cuspindo, engasgado. Assim como apareceram, os bichos sumiram. No relógio o doze sumira e a faminta agora devorava o seis.

Era melhor ir almoçar, mesmo com o estômago dado um nó, mesmo que não conseguisse comer. Ao menos arejar a cabeça. Mas das dez horas, seu relógio corria direto para uma da tarde, quando deveria estar de volta. Não podia sair. A mosca comera seu horário de almoço. Podia sentir o zumbido de escárnio vindo daquela miserável.

Arremessou o relógio na parede, pisou em cima, bateu com um grampeador. A única alteração foi o sumiço do seis e o inseto digerindo o sete.

Jogou-o de volta ao fundo de uma gaveta que fechou à chave. Atormentado, passou horas com a cabeça entre as mãos, como se tentasse conter sua sanidade. Era melhor esquecer aquele dia, ir para casa e amanhã tudo voltaria ao normal. Estava trabalhando muito, devia ser um estresse. Isso. Era estresse. Talvez fosse a hora de tirar aquelas férias já adiadas havia cinco anos. Há tempos não suportava o chefe. Ia visitar família, rever amigos, cuidar da saúde. Estava se sentindo mesmo muito magro e sem disposição. Ia ligar pra Fátima, ver se marcava um cinema. Será que ela toparia? Há meses não dava notícias. Estava resolvido. Tomaria um novo rumo. Um bom banho, uma noite de sono e vida nova.

Juntou suas coisas, mas na parede o relógio corria das cinco direto para as oito horas. O seis e o sete também haviam sumido. Pela janela o sol não se punha, estava nascendo novamente. Ouviu um zumzumzum dentro dos miolos.

Estava preso. A hora de sair nunca iria chegar.


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