Agridoce
 



Contos

Agridoce

Vicente Saldanha


O rapaz entra no restaurante, senta-se junto à janela e deixa a mochila na cadeira. O suor lhe escorre pela testa. Inspira o ar refrigerado enquanto a música oriental preenche o ambiente. Procura o cartaz familiar ao fundo do salão, levanta-se e vai ao banheiro.

Serve o prato no buffet, senta-se e come lentamente, a música suave embalando-lhe a mastigação distraída.

No caixa, a dona mexe alguns papéis. Um menino de uns cinco anos brinca perto dela, fala sozinho em língua estrangeira e caminha para longe e perto. Por vezes, a criança pergunta algo e a mulher responde com monossílabos na língua nativa dos dois.

Ela atende um cliente, esboça um sorriso tímido e lhe dá o troco com uma leve deferência. O menino imita o gesto, sorriso aberto para o homem que sai.

Durante a sobremesa o rapaz ouve a voz estridente da criança, correndo até a porta do restaurante e de volta para junto da mãe. E então: a mulher ralha com o menino em língua raivosa, olha ao redor e lhe chuta o flanco.

A colher caída ao lado do prato, o rapaz não consegue mais engolir. Uma onda de gosto azedo sobe-lhe do estômago e o pudim fica intragável.

Enquanto ele paga sua conta, nota o menino encolhido atrás da mulher, soluçando, e ela esboça um sorriso tímido e lhe dá o troco com uma leve deferência. Ele olha fundo nos seus olhos, tentando ler amor, raiva, ou tradição. Nada, apenas o sorriso sem convicção e um obrigado tortuoso. Quer dizer algo, protestar, mas as palavras trancadas.

Sai com a mochila no ombro e de cabeça baixa.


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