Contos
Eu cumi minha vó
Aline Martinelli
"O calor do sertão desmiola o cabra", disse meu vô no tempo que subia num cavalo desgastado, levando três gamela e um chapéu. Quando colocava chapéu é que ia demorar na lida. Senti um mal agouro que ele tava indo embora. E foi. Nesse dia o sol tava mais infernoso, nem sei se pra alumiar nossas ideia ou derreter de uma vez. Queria que tivesse derretido pra modo de eu não ter mais guardado no pensamento esse causo que te conto.
A casinha nossa era pequena e nem precisava de tamanho. A família era tão mirrada que em qualquer lugar que punhasse rede a gente se ajuntava. Era feita de barro e sapê. O vô dizia que fez ela ali pra ficar mais perto do riozinho que na época dele de menino novo chegava até pescar uns curimatã. Eu achava que era só prosa do vô, porque eu só via um fiapo de riacho, que de peixe não tinha é nada. Tinha era urubu, que aparecia pra comer as carcaça dos bode que o fiapo de riacho já não dava mais conta de matar a sede. Todo dia tinha urubu, todo dia a gente via alguma coisa morrer.
E despois do abandono do vô, sobrou eu, mãe, vó e Tiquinha, lidando com a fome que era maior que o sol. A fome comia a gente. Eu via os urubu avuando lá em cima e achava que como eles tava mais perto do céu, podia falar pra Deus mandar um pouco de chuva pra fazer nascer mandioca. Despois eu entendi que os urubu nunca que ia falar com Deus, eles queria era que nunca chovesse, nunca tivesse mandioca, assim a gente virava carcaça igual os bode. Eu nem falava esses pensamento com a mãe. A mãe já tava descrente, dizia que Deus levava a gente pra lá e despois se esquecia. Se Deus tinha se esquecido da gente, a fome não tinha e até hoje num sei qual dessas duas coisa justifica mais o ocorrido que vou te contar.
A vó tava lá, sentada que nem se mexia e a Tiquinha enchia o cabelo dela de nó.
Nesse dia Tiquinha fez tanto nó no cabelo da vó que a mãe se avechou, "Tiquinha! ". Ela já tinha aprendido que bastava vim seu nome da boca da mãe de maneira desgostosa que a danada já entendia que a mãe não tava de aprovação. E foi quando Tiquinha saiu correno que o toco virou derrubano a vó no chão rachado. Senti por de trás de mim o passo firme da mãe com o barulho da varinha que ela trazia pra aplicar o corretivo. E nesse instante foi minha surpresa, quando a mãe pegou a varinha e cutucou a vó porque ela não se mexia.
A mãe olhou pra mim e despois olhou pra Tiquinha e despois olhou pra cima. Inté hoje num sei se pra pedir perdão ou acertá de uma vez as conta com aquele Deus que tinha esquecido a gente lá. A mãe largou a varinha, pegou a vó no colo e me mandou acender uma fogueira. Levou a vó lá pra trás do casebre e mandou a gente se deitá que o sol tinha se ido. Eu e Tiquinha entramo no casebre sem fazer questionamento. Acho inté que Tiquinha dormiu aliviada porque não apanhou nadica, mai eu fui dormir cabreiro pensando no que a mãe ia faze com a fogueira.
Veio o outro dia, o calor derretante desde cedinho avisava que seria mai um dia sem chuva. Mais aquele dia foi diferente, a farinha veio acompanhada dum tiquinho de carne. E eu inté pensei se era a vó, mais fiz de conta que num pensei pra não causá desavença com a mãe. A Tiquinha perguntou da vó, mas já tava tão acostumada com o silêncio da mãe que nem se avechou com a farta de resposta.
Comemo carne por uns dia, mais também não durou muito de modo que a vó já tava mai pra osso do que pra carne. Melhor assim também, cê já pensou se a vó fosse taluda? E nóis ia ficar cumeno a vó por muito mais tempo.
E quem sou eu pra dizer se a mãe agiu certeiro? Despois que vim fazer morada em São Paulo penso que no sertão não tem de ter julgamento, quem manda é a seca e a fome. E ó, que agora que conto essa desgraça de vida, tenho comigo um pensamento que nunca tinha pensado, que talvez Deus inté se alembre da gente quando tá no sertão, e que se num se alembra o tempo todo é porque anda ocupado por demais com o povo da cidade.
Aline Martinelli é formada em arte visuais, virginiana, mãe do Axé (meu gato que parece um cachorro), leitora convicta e aspirante a escritora.
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