Cronicas
O aspirador do museu
Marcio Aurelio Soares
O curso era de escrita criativa. Naquela aula, o tema era o famigerado bloqueio criativo, esse bicho-papão que assombra escritores amadores e, sim, até profissionais. Um monstro invisível que, sem aviso, se instala na nossa frente como uma parede, aparentemente intransponível.
O professor, com entusiasmo de quem já viu dezenas de alunos se contorcendo em frente a uma folha em branco, propôs um exercício simples. A partir da observação de uma imagem impressa em um cartão, deveríamos escrever um miniconto. Inspirador, pensei.
No cartão, crianças brincavam na rua. Riam, corriam, inventavam jogos com uma bola desbotada. Havia poeira no ar, sol nos rostos e um vento que parecia empurrar a tarde para mais longe. Eu já ensaiava frases sobre infância, liberdade e pés descalços.
Foi então que aconteceu. Lá fora, no corredor do museu onde acontecia a aula, a faxineira ligou o aspirador de pó, um Electrolux vermelho, enorme e potente. O zumbido atravessou a porta e se instalou no meio da minha cena. As crianças pararam de correr e ficaram olhando, intrigadas, para onde vinha aquele barulho que não fazia parte da rua.
Fiquei na dúvida entre o real e o imaginário. Que tal um aspirador passeando sozinho pelas salas do museu? E as crianças? Poderiam ser atropeladas! Sim, por um aspirador de pó. No sentido mais literal e menos poético possível, mas que penetrou em minha imagem.
Foi aí que me dei conta de que o tal aspirador poderia ter mais história para contar do que eu no momento. Imaginei que fosse um aspirador aposentado, que já limpou tantos corredores e tapetes importantes que acabou ganhando um lugar de honra ao lado de relíquias antigas. Um herói silencioso da manutenção, testemunha ocular, ou melhor, de décadas de visitas, cochichos, tropeços e selfies mal enquadradas.
Ou, quem sabe, ainda na ativa, sua boca nos sugando, atraindo coisas e pessoas com uma força descomunal; todos se agarrando uns aos outros, na ânsia de se salvarem, como em um desenho de gibi, até que um super-herói simplesmente puxasse o fio da tomada. Simples e genial. Aliviados, estaríamos no chão, exaustos.
Enquanto eu escrevia, percebi que aquele objeto prosaico me devolvia o fôlego que o bloqueio havia sugado. Inspirador, porque me deu confiança para inventar. Aspirador, porque sugou minhas desculpas para não escrever.
No fim, entendi que, às vezes, o bloqueio criativo não é um muro, mas um aspirador esquecido num canto de museu: basta ligá-lo e deixar que ele leve embora a poeira das ideias velhas, abrindo espaço para as novas.
Marcio Aurelio Soares é médico sanitarista e do trabalho – servidor público. Publica suas crônicas no jornal A Tribuna de Santos.
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