Tempo de florescer?
 



Cronicas

Tempo de florescer?

Carol Schafer


A primavera deste ano será a minha trigésima. Tendo nascido na estação em que tudo floresce, costumo fazer minha lista do ano novo em outubro, quando as esperanças se renovam. Confesso que esse ano será mais difícil fazer essa lista.

Cresci ouvindo que aos 30 teria casa própria, filhos, emprego e renda estáveis. Acordei num país em que 52% da minha geração vive de salário em salário (Deloitte, 2025). Para 35%, fechar o mês é malabarismo; 46% não se sentem financeiramente seguros. Num contexto onde o adubo é necessário para brotar, como podemos florescer sem condições de pagar para firmar raízes?

E não é só o bolso que sofre: um terço de nós vive ansioso quase o tempo todo (Deloitte, 2025). Só 58% consideram sua saúde mental boa. O trabalho adoece; 45% culpam o ambiente tóxico. E ainda há o medo do futuro: 73% dos jovens brasileiros temem a mudança climática e 63% sentem ansiedade ambiental.

Isso me fez lembrar um florescer inesperado que presenciei mês passado: em pleno inverno, vi uma goiabeira se apressar em dar frutos. A euforia de comer goiaba fora de época acabou no momento em que a boca provou o fruto privado de doçura. Quando se força o florescer, a vida até responde - mas de forma incompleta.

Uma conversa recorrente entre amigos da minha geração é sobre ter ou não filhos. Além da insegurança financeira, muitos se questionam se valeria a pena colocar mais gente num mundo que está fadado à exaustão. Nesse ponto, sempre me lembro que Elon Musk teve 14 filhos, enquanto Fernanda Montenegro sabiamente afirmou que "o mundo está sempre acabando" - e precisa de gente boa nele.

Mas isso nos leva a um impasse dos relacionamentos heteronormativos. Enquanto muitas mulheres se organizam, se politizam, florescem em coletivo, parte dos homens jovens se tranca em bolhas digitais, inflamados de discursos de ódio (Financial Times, 2024). Esse abismo que se forma gera insegurança nos relacionamentos.

Enquanto homens de extrema direita se dizem celibatários involuntários, mulheres de esquerda tendem ao celibatário imposto; é mais seguro e menos desgastante investir nas amizades. Preservá-las é o desafio: as rotinas impostas pelo capitalismo tardio esgotam a bateria social. Para florescer, é necessária a polinização e é difícil polinizar um campo quando as abelhas somem do horizonte. E elas somem: 75% das plantas cultivadas dependem de polinizadores (Greenpeace) e, desde os anos 90, perdemos 25% das espécies de abelhas (ScienceDirect, 2021). Sem abelhas, até a flor mais persistente murcha.

Não tenho uma resposta para as questões do nosso tempo, nem pretendo ensaiar aqui algum incentivo moral - que certamente se esvairia logo mais essas palavras fossem lidas. Só sei que pretendo colocar os pés no chão antes de escrever a lista para meus 30 anos; procurar metas possíveis dentro do que tenho ao meu alcance. Lembro da goiabeira no inverno: o fruto veio, mas o sol não, então faltou-lhe a doçura. Talvez não precisemos esperar a primavera para florescer - a própria goiaba não floresce na primavera - mas é preciso o tempo certo. Sem comunidade, sem as abelhas para polinizar os frutos, até a esperança e a coragem se enfraquecem. Algumas flores só existem quando muitas mãos adubam o solo, e florescer, agora, é um ato coletivo e de resistência. Sejamos enxame.


Carol Schäfer é gaúcha de Porto Alegre. Artista multidisciplinar, designer e escritora, acredita que criar tem potencial transformador, é uma responsabilidade social. Entre costuras e melodias, constrói um feminismo feito de texturas - áspero quando necessário, acolhedor quando possível. Arte, para ela, é verbo de mudança, e o belo só se completa quando coletivo. Esta é sua primeira crônica publicada. Você pode encontrá-la no Instagram no @eucarolschafer. Participa do Curso Online de Formação de Escritores

 

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