Cronicas
A menina que não pedalava
Lara Passini Vaz
Antes da cena, veio o ipê.
Passo sempre por ele, no caminho da barragem. Mas naquele dia, ele estava diferente - ou eu estava. O amarelo das flores não gritava. Ele sussurrava. Como quem floresce para dentro, antes de explodir para o mundo.
Continuei andando. A primavera já havia começado ali, mesmo sem cerimônia. Foi quando vi a menina.
Estava numa bicicleta sem rodinhas, mas com os pés longe dos pedais. Ela não pedalava. Só deixava-se ir. O pai vinha atrás, correndo com o corpo todo - o corpo de quem já entendeu que amor é também exaustão. Ele segurava firme o banco da bicicleta. E ela confiava. Só isso. Confiava.
Pensei: às vezes, eu sou ela. Fico suspensa sobre coisas que não me movem, mas me levam. Pés fora do lugar, cabeça longe. Só o coração atento, pedindo: não solta. Ainda não.
Outras vezes, sou o pai. Faço força por alguém que não está pronto para fazer por si. Corro junto. Suo por amor.
A primavera é isso também:
um tempo em que o que parecia estéril começa a florir.
Mesmo que os pedais ainda estejam parados.
Mesmo que a árvore não saiba que já está linda.
Eles passaram por mim em silêncio. Ela ria. Ele arfava.
Eu guardei tudo: o ipê, a menina, o amor que corre por trás.
Porque às vezes, o que floresce não são as árvores.
É a gente que, por dentro, aprende a ir.
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