A velha primavera chegou. De novo. E eu a celebro como quem reencontra uma antiga amiga dessas que, mesmo diante de vários admiradores, ainda reconhece os nossos gostos e sabe da nossa flor preferida. Esta é a minha sexagésima primeira primavera. Sessenta e uma voltas ao redor do sol, e ela nunca deixou de aparecer, pontual e silenciosa, como se dissesse: "Estou aqui, caso você tenha se esquecido de olhar."
E como sempre, ela vem nos encantar os olhos. Não só os meus, mas os das abelhas que dançam em espiral entre as flores recém-nascidas, os pássaros que afinam suas vozes com mais harmonia, os beija-flores hipnotizados pelo néctar, e até os bichos mais discretos que agora se deixam ver sob a luz mais branda e doce da estação. Há um certo brilho nos olhos da natureza, um frescor nas manhãs, uma leveza na atmosfera. É como se a vida, por um instante, se lembrasse de ser bonita sem esforço.
A primavera tem esse dom raro: colorir, enfeitar e perfumar a vida com maestria. Como quem pinta um quadro sem errar o traço, como quem compõe uma música que já estava à espreita, só esperando alguém que a escutasse. Porém, aqui mora o espanto - inacreditável como algumas pessoas nem se dão conta disso.
Andam apressadas, como se o mundo não tivesse florescendo ao seu redor. Não notam o cheiro do jasmim, não percebem a explosão majestosa das cores nos jardins, nem o sussurro morno do vento que anuncia renovação. Falam de prazos, boletos, notícias, fofocas, mas não mencionam a rosa amarela que ontem virou sol no meio da pracinha.
Enquanto isso, lá no hemisfério norte, é outono. As folhas caem, os tons dourados tomam conta do chão e os casacos voltam aos ombros. Eles se despedem, enquanto nós recomeçamos. Somos, ao mesmo tempo, espelho e contraste. Uma estação se esvaindo lá, outra se abrindo aqui. O mundo é um enorme pulmão respirando ciclos, e a maioria nem nota que estamos todos inspirando em tempos diferentes.
Mas eu noto. Noto porque a primavera insiste em me chamar para observa-la. E na minha sexagésima primeira vez, prometo não passar distraído. Juro continuar me encantando com as abelhas, com os cantos dos sabiás, com festival multicor das mais variadas flores, com os perfumes invisíveis que dançam no ar. Porque toda primavera, pra mim, é também um lembrete gentil: ainda há tempo de florescer.
"A primavera veste-se com todo esplendor
Colorida e perfumada assalta os sentidos
Olhos e olfato rendem-se a sua nobreza
A maior das magias de um inspirado criador"
Kennedy Pimenta nasceu em 64, na cidade de Pimenta, MG. Trabalhou como Técnico em Operação de Sistemas na CEMIG por quase 30 anos. Licenciatura em Letras no ano de 2017 pela UNIS. Gosta de praticar vários tipos de esporte. Apaixonado pelas rodinhas de causos e piadas. Daí nasceu a vontade de imortalizar o que ouvia, além de algumas inspirações poéticas. Escreveu, participou e idealizou alguns livros. Participa do Curso Online de Formação de Escritores