Pelo estado das coisas

por Rubem Penz

Muito, muitíssimo interessante a entrevista que li do Sr. Rubens Ricupero no momento em que está lançando seu livro “A diplomacia na construção do Brasil: 1750-2016” (Versal Editores). Para quem não se recorda, vale lembrar que meu quase xará foi uma das primeiras vítimas brasileiras de áudio vazado, cujo conteúdo, logo em seguida, viria a se transformar em lei informal batizada com seu nome. Mas, voltando à reportagem, gostei especialmente da resposta à questão de já ter sido, ou não, filiado a algum partido político. Nunca, disse Ricupero. Citando Raymond Aron, “soldado e o diplomata são duas faces da mesma moeda, porque representam o Estado. E não um governo”.

Sobre isso, recorro a outro Rubem, o Braga, homem também apartado de cores partidárias. Tido por muitos como comunista – um tanto por suas críticas aos poderosos e defesa dos oprimidos, outro tanto pelas amizades –, deixava claro que “nunca se filiaria ao partido nem concordava com tudo o que o líder Prestes dizia. Além do mais, lembraria, os comunistas falam muito mal de intelectuais e pequeno-burgueses – exatamente o que Rubem se orgulhava de ser”, cito aqui o biógrafo Marco Antonio de Carvalho. Enfim, independentemente de simpatias e antipatias, entre as teses marxistas e sua liberdade, Braga optou a vida inteira pela a segunda.

Onde quero chegar com isso tudo? Na semelhança quase inquestionável entre o soldado, o diplomata e o cronista. Minha crença é de que os três, cada um à sua forma, devem passar a vida toda equidistantes das legendas políticas pelo mesmo motivo: serem funções de estado. Os dois primeiros, do Estado maiúsculo de Aron. O cronista, do estado das coisas, minúsculo sim, porém não menos grandioso. A visão partidária (e nenhuma parte será o todo) macula de modo intrínseco a liberdade criativa e analítica, transformando o escritor em sequestrado dentro de sua própria trincheira. Aliás, para não deixar o crônico prosador sozinho representando o estado das coisas, é justo nominar seu principal parceiro: o chargista, ácido e franco atirador.

Representar com independência o estado das coisas é tarefa árdua e, por vezes, ingrata. Colunistas, somos cobrados a todo instante a denunciar (ou acudir) A ou B quando, a todo instante, o mais importante é ser leal apenas aos próprios princípios. Ser defensor incansável da liberdade e, com ela, iluminar no limite da competência o debate – sem o objetivo de agradar ou desagradar alguém. E isso, de preferência, com escrúpulos.

 

 

Comentários:

Plenamente de acordo. Acrescentaria ainda o padre, o pastor... Lutar por igualdade, por direitos, pelo humano, não pode entrincheirar ideias. A liberdade de crítica e de direção
na luta , o bom senso são fundamentais para que se chegue a um mundo novo , onde haja respeito antes de tudo .

clarice dorr, venancio aires 18/07/2018 - 23:01

Rubem, meu sempre querido e grande professor Rubem! Lapidar a tua crônica! Também assim me vejo, tanto na minha carreira, como no meu lado cronista...grande e saudoso abraço

Marta Leiria, Porto Alegre, RS 25/06/2018 - 13:58

Querido Ruben:
nestes tempo esquisitos de radicalismo maniqueísta, tua crônica é um bálsamo. Muitos confundem pensar de modo isento com ficar em cima do muro. que muro, afinal?
Dane-se este muro, que separa e opõe ideias e - pior ainda, pessoas - em certas/erradas; esse muro que ignora os meios tons, as luzes e sombras que nos destacam como únicos num universo de iguais.
Parabéns, mais uma vez, pela corajosa lucidez de dizer delicadamente verdades que tantos não querem ouvir.
Um abraço da Marisa

Marisa Magnus Smith, Porto Alegre/RS 25/06/2018 - 11:30

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