A Vidraça

por Simone Saueressig

Outro dia estava aqui, escrevendo, quando olhei casualmente pela vidraça da janela que fica ao lado do meu computador. Me deparei, um pouco atordoada, com uma névoa branca e pegajosa sobre a superfície do vidro, um filtro indesejado sobre a paisagem urbana. Resquício, quem sabe, da reforma recente no exterior do prédio, aliado à poluição cotidiana, essa que respiramos sem saber e que se abate sobre nós à noite, na forma daquela tosse irritante, sempre disposta a nos legar uma insônia desaforada.

Me entrou aquela vergonha de dona de casa – coisa que não sou, mas de vez em quando, tenho ataques de – e resolvi tomar cartas no assunto: pano de limpeza, álcool e vários jornais velhos. Sou das que aprendeu que vidro se limpa com essas coisas, embora o Facebook insista em me informar que é possível limpar vidros com Coca-Cola. Sei lá, nunca tentei, mas não duvido. Em todo o caso, acredito que cavalo se sobe só por um lado, daí o meu apego aos velhos ensinamentos caseiros.

Por vários minutos me dediquei à tarefa de tornar a vidraça transparente de novo. E como limpeza é meio que uma febre, da minha janela parti para a do quarto ao lado, maior, emperrada, e mais empoeirada do que a minha. De trilha sonora, o rádio informando o de sempre: roubos, corrupção, carro-forte, foragidos, quando é que o meu país vai ter de novo algo de positivo para contar? O pano umedecido de água e álcool ia rodando na ponta do braço, apagando a neblina suja e abrindo caminho para a luz e as cores. Quando terminei achei que ficou bonito, achei que a janela até parecia maior, com mais espaço para a paisagem de sempre, que pode se apresentar com todo o vigor e profundidade.

Dois passos atrás, sento na cama e olho. E a mente escorrega pelo velho vidro novo, e me dou conta de que junto com toda aquela poeira e manchas, junto com as migalhas da reforma e os excessos que embaçavam o vidro, havia apagado a memória dos pores de sol, das andorinhas estivais e o caminho das gotas das chuvas que desenharam mapas de aquíferos fugazes e lambuzaram de arco-íris o céu gris do Inverno passado – quente Inverno esse, que antecipou um Verão seco e suave como poucos. Apaguei as sombras das nuvens em arco de que tanto gosto, mares flutuantes que nos assustam com suas cores escuras e suas dimensões de ciclope. Lustrei com gosto o que restava das noites de Lua Cheia, os eclipses que desafiam os olhos a não olhar o matemático bailado dos corpos celestes, do qual somos apenas espectadores. Poli até desaparecer os últimos resquícios das estrelas distantes, o passar dos aviões em sua rota de pouso e o inexplicável roteiro de pontos luminosos sem identidade. E o nascer dos anjos, que vejo em cada clarão de relâmpago. Ficou tudo no pano sujo, amassado e misturado, perdido para sempre.

Diante de mim, o vidro limpo. Pronto para mais luas, mais pores de sol, mais tempestades. Pronto para mais cores e mais horizontes, a amplidão do Tempo e a louca corrida da Vida.

Desliguei o rádio. Guardei as coisas. Tudo em silêncio, o silêncio quedo das casas vazias, as vidraças limpas e os corações sem sonhos.

Uma vidraça só está pronta para novos dias e noites quando temos a coragem de apagar dela as velhas imagens, sejam elas belas ou pegajosas. Ainda bem que limpar um vidro é fácil.

Já um país, é bem outra história.

 

 

Comentários:

Gostei muito! Parabéns!

Ecilda Wmanski, Porto Alegre-RS 27/02/2018 - 17:47

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