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O caminho dos sentidos na palavra "cadeirante"

Gustavo Conde


Desde a postulação seminal de Ferdinand de Saussure - o formulador da teoria mais consistente sobre a língua humana até hoje, raiz de todas as outras que a sucederam -, a de que o signo linguístico é composto por significante e significado, a `palavra` se libertou do cárcere do `sentido a priori`.

Palavras (os signos) podem ter a mais diversas combinações entre forma e conteúdo, sendo que a arte de codificar essa relação - que é eterna enquanto dura - requer uma visão menos simplista a respeito da característica humana de produzir sentido através dos sons articulados do trato vocal ou mesmo dos caracteres de um reles teclado de computador.

O sentido – associado a uma palavra - nem sempre coincide com a etimologia, com a morfologia, com a lexicografia (o mundo dos dicionários) ou mesmo com certos usos sociais consagrados.

(...)

É nessa lógica que se enquadra, por exemplo, a palavra "cadeirante". Em algum momento da história, quando todo o espectro ideológico habitava ainda um mundo discursivo muito rudimentar, `cadeirante` produzia um sentido pejorativo, quase que de rebaixamento.

Nomear um sujeito da história como `cadeirante` há 30 anos atrás era como segregá-lo a um papel coadjuvante, secundário, significado com a demanda dos cuidados especiais, da comiseração, do respeito acanhado e transverso que se desdobra e toma ares de "pena" (o jogo dos sentidos, advirto, não é fácil – a bem da verdade, é o mais difícil de todos).

Ocorre que a história não para para descansar. Ela prossegue com seus processos de significação ininterruptos, impiedosos, insinuantes e "reorganizadores" de sentido. À medida que as chamadas `minorias` (outro rótulo ainda em fase de maturação) foram se afirmando, a palavra `cadeirante` foi ganhando sua soberania e seu sentido poderoso de identificação subjetiva.

Depois da "densidade" que a pejoração lhe conferiu, como o sangue que recobre um bebê ao nascer, a palavra ganhou vida própria e libertou-se da tutela de enunciadores hostis para reabitar o universo social das identificações turbinadas com autoestima e autoafirmação.

O cadeirante, hoje, tem orgulho de ser chamado por esse nome. Mais do que isso, faz questão, uma vez que o nome o investe de inserção histórica e soberania cidadã.

É um nome que invade todos os outros mundos do discurso, como o jurídico, o médico, o religioso e, é claro, o político.

É uma palavra forte, que irradia assertividade e altivez, que se apodera das narrativas, que confere adesão social, produz afetos e insere crianças no mundo simbólico sem o ranço do preconceito residual que, por mais que recrudesça, não é suficiente para lhe arrancar os sentidos.

Os cadeirantes podem ter orgulho de suas singularidades que, aliás, os fazem tão mais especiais do que nós, "andantes". Eles chamam a atenção para a maravilha delicada que é habitar com o devido desejo um mundo simbólico heterogêneo que se reinventa a cada segundo, a cada passo, a cada giro de uma cadeira que decidiu se pôr em movimento para participar da luta pelos valores democráticos de sempre: o sonho, o trabalho e o protagonismo.

Leia o texto completo no Brasil 247

 

 

 

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