Contos

Sempre Juntas

Sinara Foss


Flora tinha um lindo quarto enfeitado com muitas cores. Na parede, um elefante verde descia por um escorregador de arco íris. Nunca dormiu lá. Berta, sua mãe, não conseguia passar a noite longe da menina. Imaginava cenas de sangue, esquartejamentos, todo o tipo de coisa ruim. O que sentia por aquela filha era mais que amor, era necessidade, beirava a loucura.
Uma manhã , depois de muitos pesadelos, Flora simplesmente não amanheceu ao seu lado. Procurou no banheiro, chamou pela casa toda. Acordou vizinhos, saiu pela porta, no corredor ainda de camisola, gritando muito.

A pequena não foi encontrada em lugar algum. Seus pais a acompanharam até a delegacia. Aos prantos, implorou que a ajudassem, que encontrassem sua filha. O caso ficou sem explicação e desistiram meses após o Boletim de Ocorrência ter sido aberto. Policiais e vizinhos desconfiavam da mãe. O ex-marido afirmava, que a própria Berta havia dado um fim ao corpo da menina sem deixar vestígios. Provas, ninguém tinha.
Berta deixou de ir ao trabalho. Os remédios, os calmantes a dopavam. Não tinha porque viver. Os olhares das pessoas diziam que ela era a culpada.

Todos dormiam na cidade. Berta tinha que ir pra cama, que fingir que vivia. Caminhou até o quarto, olhou pela janela e viu as luzes dos postes enfraquecendo em contraste com mesclas de sol manchando as nuvens de sangue.

Abriu o roupeiro e pegou as cobertas com as quais ia se cobrir. Como todas as noites, preparou a cama para duas pessoas. Foi até a estante de livros no quarto, aproximou-se de uma pilha e aspirou, para ver se tinha algum cheiro. Puxou um compartimento com lombadas de vários livros colados uns nos outros. Era uma gaveta disfarçada, escondida. Dentro dela um corpo de criança desidratado, enrijecido com olhos de vidro estáticos. Uma menina, vestida num pijama rosa com desenhos de elefante verdes. Pegou-a no colo com carinho e a deitou na cama ao seu lado. Puxou o acolchoado e a cobriu com cuidado. Sorriu enquanto observava o olhar, sem expressão, que a encarava.

-Boa noite para a mãe, filha!

***

Sinara Foss nasceu no interior de Santo Antonio da Patrulha, no litoral norte do RS. Tradutora de Inglês, dá aulas na English Place. Tem duas filhas e 18 pets. Faz curso na Metamorfose em Porto Alegre.

 

 

 

Comentários:

Mesmo com a morte da filha essa mãe não conseguiu olhar a mesma como um outro ser e não como extensão de si mesma que era o que a filha representava pra ela , uma relação simbiótica que a menina não suportou . Ter filhos significa a capacidade de amar e deixar viver o que nao. O seguiu Berta.

Marilene, Santo Antônio da patrulha 30/10/2018 - 22:00

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