Contos

A vida que segue

Dora Almeida


Meio-dia. O sol forte do verão queima a pastagem e estala os galhos das árvores ao redor do casario da estância. Chegado de véspera, José Carlos nem dormira direito, cansado demais depois de uma viagem de seis horas, três delas em estrada de chão batido.

Levantara depois das oito, horário tardio para quem mora no campo, onde a lida começa ainda noite escura. Mas, depois do café com leite, do pão caseiro e da manteiga fresquinha, recém-batida, que a Engrácia lhe preparara, sentia-se revigorado.

Caminha então pela casa, pelo pátio. Lá estão os pessegueiros, as laranjeiras e o pé de lima plantado pela avó. Pensativo, senta num banco à sombra das árvores. Engrácia lhe traz um mate.

– Gracias, Engrácia.

A mulher ri do trocadilho e pergunta se ele vai se demorar desta vez.

- Deve fazer uns cinco anos que não tiras uma temporada na estância.

- Não sei ainda. Tudo me lembra a vó. Sinto muito a falta dela.

- Todos sentimos, mas é a vida que segue. Dona Carlota sempre falava que continuarias o seu trabalho. Ainda mais agora que és doutor veterinário formado. O gado e toda a estância estão precisando de um trato.

Depois do almoço, a sesta debaixo das parreiras. O barulho das cigarras, o canto dos pássaros e o mugido dos animais embalam seu sono. Desperta com a conversa das mulheres da casa preparando uma tachada de goiabada.

- A gente faz do jeito que Dona Carlota fazia, Zé. Vais gostar.

- E a Rosinha, Engrácia? Que fim levou? O que é feito dela?

- Às vezes aparece aqui em casa. Sempre pergunta por ti. O menino está grande, quase na idade de colégio.

- Menino? Que menino?

- Sim, Rosinha tem um menino. Muito lindo. Rosinha se desdobra pelo guri. E cria ele sozinha. Ninguém sabe quem é o pai. Eu até tenho minhas desconfianças, mas ela ri e diz que eu não sei de nada. Deixa pra lá.

- Mas e o que ela faz para viver? Trabalha?

- No bar do Terêncio, lembra dele? Tem de um tudo naquele boteco, desde rinha de galo, jogo do osso, carteado, bebida. Tá sempre lotado. O Delegado é freguês de carteirinha, dizem que até o Juiz e o Prefeito dão as caras por lá de vez em quando.

- E a Rosinha? Não é perigoso para ela trabalhar nesse antro?

- Nada! A guria se dá ao respeito. Sempre foi assim, desde pequena. E o Terêncio a protege, parece que ela é sobrinha dele. Ganha um bom salário, pois trabalha na cozinha e ainda serve as mesas, o que lhe rende um dinheirinho a mais. E a mãe, já velhinha, ajuda como pode, cuidando da criança.

José Carlos acende um cigarro e olha para as bandas da lagoa. Lembra da Rosinha , saindo nua das águas, naquele verão antes dele ir para a capital. Nunca mais a vira. À tardinha, manda encilhar um cavalo e vai até o bar do Terêncio. Pede um pastel e uma pinga.

Rosinha vem servir, e, ao dar de cara com Zé Carlos, derruba tudo no chão. Num relance lhe vem à mente as tardes quentes na lagoa, anos atrás.

É quando entra um castelhano mal-encarado, já passando a mão nas nádegas da moça que se abaixava para limpar o que havia derrubado.

Carlos segura-o pelo cangote e vai empurrando o tipo porta afora. Mas ele o desafia para uma partida de taba - o jogo do osso:

- Se for suerte para usted, quédate con ella, pero, si for culo, yo me quedo com la chica.

- Desafio aceito, mas não pela moça, que não está em jogo. Apenas para te dar uma lição.

E o jogo começa. O castelhano atira culo e José Carlos, suerte. Suerte clavada. Pega Rosinha pela cintura, colocando-a na garupa do cavalo e se vão os dois.

Rosinha passa em casa e chama o menino:

- Vem, Zezinho, vem cumprimentar o moço.

Zezinho, desconfiado, examina o homem com curiosidade e chega mais perto.

A mulher observa os dois, o mesmo olhar doce e terno, os mesmos cabelos encaracolados, o mesmo sorriso.

Eles se abraçam, os três.

Suerte clavada. É a vida que segue.

***

Dora Almeida nasceu em Dom Pedrito, RS. Professora de Matemática por mais de quarenta anos, hoje, escreve crônicas. Participou de algumas oficinas literárias com o escritor Rubem Penz, da Santa Sede, sendo três delas com livros publicados. Um deles, “Maria volta ao bar”(2014), sobre a obra de Antônio Maria, com indicação de finalista do Prêmio Açorianos de Literatura na categoria crônicas; o segundo , “Cobras na cabeça” (2015), sobre a obra de Luis Fernando Veríssimo e “ A persistência do amor” (2016), sobre Paulo Mendes Campos, premiado como Livro do Ano na categoria crônicas. Atualmente faz parte do Grupo de Leitura e Criação Literária da escritora Jacira Fagundes, da Metamorfose Cursos.

 

 

 

Comentários:

Dora muito bom. Uma história típica de nossos Pampas. A leitura nos faz ver o pomar próximo a casa. O bar com a rinha lembra meu pai que criava galos para a briga. E o final, em que ele vai conhecer o possível filho, interessante. Como existem mulheres que ficam grávidas e não falam para os país. Uma discussão que dá muito pano para Mangás.

Magaly Andriotti Fernandes, RS 29/09/2018 - 19:57

Amada Dorinha faz, neste conto uma bela viagem às suas origens e costumes de quem veio dos Pampas Gauchescos para a capital.
Super amei a leveza.
APLAUDO!

IEDA MARIA MORSCH BEIER, Rs 29/09/2018 - 14:15

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