Contos

Aventura

Marina Denser Mainardi


Sentada no braço do sofá, encaro o tapete enrolado no outro lado da sala. É um tapete macio, com vários tons escuros de roxo se entrelaçando. Ocupava a maior parte do cômodo, deve ter uns dois metros em sua parte mais comprida. E tem um corpo dentro dele. Meu próprio corpo, na verdade.

Eu cheguei há algumas horas – ainda viva, aliás – para jantar com meu namorado. Ou ex-namorado. Era cansativo o jeito como ele andava com ciúmes até da minha família, então a intenção essa noite era terminar a relação do jeito mais amigável possível. Passei pela porta e continuei em pé, enrolando os dedos na alça da bolsa. Eu expliquei a situação como pude e deixei claro que estava acabado. Ele disse que podia mudar, mas eu recusei. Levantando a voz, tentou apelar para a nostalgia e um pouco de culpa, falando sobre tudo que já passamos e as aventuras que poderíamos ter. Incomodada com o rumo da conversa, achei melhor sair e conversar com calma outro dia. Eu me virei e estava quase abrindo a porta quando fui puxada pelo braço e atirada para dentro da sala. Foi aí que as súplicas pararam. Foi aí que tudo parou.

Aos poucos, entendendo minha situação atual, assisti o desgraçado alternar entre gritos e pedidos de desculpas para o meu cadáver. Não era uma cena bonita. Caí quando ele me puxou e bati a cabeça na mesa de centro, as taças e a tábua de queijos saíram voando. A mesa e o tapete estavam cobertos de vermelho, parecia um banho de sangue. Na verdade, era vinho. Eu não sangrei muito, mas nenhum pescoço deveria dobrar assim.

Quando se recompôs um pouco, Pedro começou a agir. Limpou o chão e a mesa, juntou os cacos e me enrolou na merda do tapete. E agora, enquanto eu sento aqui o encarando, ele abre a porta da garagem e volta para a sala. Respira fundo algumas vezes e se abaixa para segurar uma das extremidades – acho que meus pés. Forte o bastante para me matar, mas não para me carregar. Que ótimo. Levanto do meu lugar no sofá e acompanho conforme ele me arrasta pela garagem e me coloca na parte de trás da caminhonete. A ponta do tapete ficou para fora, então ele força para dentro e fecha a porta com um baque. Isso é irritante. Eu tinha tanto para fazer ainda; se eu perdi isso, ele merece o mesmo – eu grito essas palavras na cara dele, e percebo seu corpo estremecer em um calafrio.

Às quase três e meia da manhã, depois de quase uma hora dirigindo, ele começa a diminuir e eu reconheço o local. É um cemitério antigo que ficou para trás quando a cidade cresceu. Seu último “residente” deve ter sido dos anos 1950. Até agora. Ele vai me deixar nesse lugar abandonado, esquecida como... Bem, como um fantasma. Fecho o meu punho e dou um soco no painel, uma música surge a todo volume nos autofalantes e quase faz Pedro perder controle do volante. Com olhos arregalados ele desliga o rádio e olha ao redor. Em vez de parar em frente ao cemitério, pega uma estradinha lateral já quase coberta pela vegetação que avança e estaciona a caminhonete no portão dos fundos, onde não pode ser vista da estrada principal.

Da caçamba ele tira um pé-de-cabra, que prende precariamente no cinto, uma lanterna, que segura entre o ombro direito e o queixo, e o meu corpo. Pedro se prepara para usar força no cadeado do portão, mas este está quebrado há sabe-se lá quanto tempo. Ele entra desimpedido e me arrasta sem cerimônia pela grama úmida do cemitério. O único som além dos insetos é o sussurro do tapete na grama alta.

O passo é lento e ele pausa para juntar a lanterna que cai a cada tantos passos, a lua minguante não fornecendo luz alguma. Com um suspiro, descruzo os braços e passo a mão pela rocha áspera de uma sepultura. Muitas dessas lápides já sem nome, erodidas

pelo tempo, e quase todas cobertas por limo e folhagens. Pergunto-me se até os fantasmas já abandonaram este lugar.

Pedro enfim para em frente a um pequeno mausoléu, num canto remoto do cemitério. Ele me larga com um baque surdo, apoia a lanterna em uma lápide vizinha e prepara o pé-de-cabra. Com alguns minutos de muito esforço, consegue abrir a porta de ferro do mausoléu, seu rangido ensurdecedor no silêncio da noite. Ele finca o pé-de-cabra na grama e o usa para segurar a porta. Volta-se para o tapete, já molhado com o orvalho noturno, e tenta empurrá-lo para dentro. Tendo dificuldade em empurrar, Pedro decide entrar primeiro e me puxar pela área estreita entre sepulturas. Quando alcança a parede dos fundos, ele larga meu corpo no chão e sussurra que me ama. Sem hesitação, eu chuto o pé-de-cabra e bato a porta do mausoléu. Por uma fração de segundo, logo antes de a porta fechar, os olhos dele se fixam nos meus. De imediato o ouço gritar, e então vêm as batidas frenéticas na porta.

Por alguns minutos mais, aprecio o sorriso da lua ao som dos uivos desesperados, agora cada vez mais distantes conforme eu me afasto. Sentindo-me leve – digo, de fato mais leve que o ar – me dirijo ao portão da frente. Conforme ponho os pés para fora do cemitério, sinto uma brisa leve me levar embora.

***

Natural de Porto Alegre, Marina Denser Mainardi é formada em Ciências Biológicas. Com interesse nas diferentes formas de se contar histórias (livros, quadrinhos, séries, filmes, games, etc.), costuma focar em mistério e fantasia. Atualmente participa do Curso Livre de Formação de Escritores na Metamorfose.

 

 

 

Comentários:

Muito bom! Narrativa eletrizante. Adorei a leitura

Anton Roos, Dois Irmãos 19/11/2018 - 11:49

Ótimo conto. Muita criatividade. Atenção aos detalhes, como quando diz que ficou a espera, enrolando os dedos nas alças da bolsa. Maneira de fazer o leitor enxergar a cena.
Dos melhores contos que tenho lido ultimamente.

Maria Moura, Porto Alegre. RS 02/10/2018 - 14:26

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