Contos

O espetáculo nosso de cada dia

George Breno dos Anjos Queiros


Respeitável público, conheça agora a história dela, a incrível Jandira, com seu corpo franzino, pele branca queimada de sol, no cabelo uma tentativa de arco-íris feito de papel crepom, e para cobrir suas vergonhas, vestidos feitos com objetos não identificados. A cada semáforo da boa e velha Goiânia, Jandira arma sua tenda, transforma-se na malabarista, mágica, mulher barbada, palhaça, se tiver inspirada até mesmo domadora de leão. Assim, entre um sinal verde e outro, ela faz da rua o seu picadeiro.

Quando tinha apenas dezesseis anos, Jandira se apaixonou pelo palhaço Pinico e decidiu fugir com a gente, matando sua mãe de desgosto. Foi o maior escândalo na pequena Iaciara. Aos poucos a garotinha do interior foi se tornando uma grande artista, a maior estrela do Circo Raio de Sol, até perceber que não era a única a cair na lábia do palhaço: encontrou seu marido no fundo falso da caixa misteriosa com a mulher elástico, uma cena medonha.

A nossa atração principal está agora com trinta e dois anos nas costas e muitas marcas no rosto, ela é o seu próprio circo, ao invés de ir mudando de cidade, troca apenas de rua. Acomodem-se, o espetáculo de hoje é em uma avenida movimentada no centro de Goiânia, a estrela chegou até aqui após comer um pão amassado com café e pegar um ônibus lotado que faz qualquer um implorar por um emprego de verdade, sob um sol forte a maquiagem derretida mal consegue esconder suas olheiras e seu desalento.

Fim de tarde, as pessoas começando a sair de seus trabalhos. Como de costume, não pedimos esmolas, ficamos até o último segundo do sinal vermelho mostrando nosso trabalho e vamos embora com um largo sorriso no rosto. Com vocês... Jandira! Essa moça pintada que muitos não conseguem ver avança até o meio da faixa de pedestre, venda os seus olhos e começa o show. A danada está com garra, corre de um lado para o outro jogando as clavas no ar. Por alguns segundos ela se lembra da casa de sua mãe, do tempo em que tentava fazer malabares com as laranjas e limões que tinha no quintal, refletiu sobre suas escolhas, em que esquina perdera sua fé, quando deixou de ser gente para ser artista.

Por favor, não batam palmas, diante de seu devaneio a pobre moça não viu o sinal verde, assustou-se com as buzinas e gritos dos motoristas impacientes, e acabou por deixar suas clavas cair entre os carros. Retirou a venda, tentou recolher seu material de trabalho, mas já era tarde: perdida naquele trânsito quase foi atingida por um motoqueiro que passava apressadamente, caiu no chão da calçada tentando se desviar, e ali mesmo, com o vestido sujo de sangue, se despediu de mim.


***

George Breno dos Anjos Queiros é graduado em Letras, com licenciatura plena em Português e Inglês, pela Universidade Estadual de Goiás – UEG, instituição em que defendeu com êxito sua monografia sobre “Diversidade Sexual e Transgressão de Gênero na Literatura infanto-juvenil” em 2015. Natural de Campos Belos – GO, ele foi finalista do IV Concurso de Redação do Senado Federal, realizado em 2011; além de ter participado como voluntário na Biblioteca Municipal Cora Coralina em Combinado – TO, na elaboração e execução do projeto “Adoro Contar Histórias”. George passou a maior parte da vida com sua família em Combinado, uma pequena cidade do interior do Tocantins, onde descobriu sua paixão pela literatura, especialmente por poesias e contos de fadas. Atualmente, com vinte e quatro anos, é aluno na Oficina de Criação Literária 2018 do professor Marcelo Spalding, mora em Goiânia – GO, e trabalha como agente de atendimento e negócios. Contato pelo email george.jovemsenador@hotmail.com.

 

 

 

Comentários:

Parabéns pelo texto!

Marcelo Spalding, Porto Alegre 13/08/2018 - 18:15

Envie seu comentário

Nome :
E-mail :
Cidade/UF:
Mensagem:
Verificação:
Repita os caracteres "435208" no campo.