Contos

Vida em balanço

A praça estava em reforma. Quase todos os brinquedos estavam interditados. Andaimes, tapumes e lama davam ao espaço uma sensação de abandono. Mas Rosane não percebia nada a seu redor. Sentada no balanço num vai e vem vagaroso, ela só conseguia enxergar a própria tristeza. E deixava as lágrimas correrem no rosto como se também pertencessem à chuva que caía.

O vestido que comprara para a noite já perdera a compostura. O colar foi destruído durante a briga. O sapato caiu em meio ao barro. Completamente desorientada ela não compreendia como Carlo chegara ao ponto de pegar uma faca para tentar matá-la. Esperava que ele enraivecesse quando lhe falasse da separação, mas nunca pensou que chegaria a tanto.

Ela nem mesmo terminara de falar e ele já aos gritos começou a ameaçar. Rosane, que não admitia desfaçatez, também alterou a voz e sem conseguir segurar o que guardara por tanto tempo despejou tudo que pensava a seu respeito. Incluindo que não era bom de cama. Ferido como macho, Carlo empunhou a faca do balcão da cozinha projetando-se sobre ela. Daí em diante, ela só tinha flashes do que havia ocorrido.

Ainda abatida, levantou do balanço e caminhou em direção ao asfalto para atravessar a rua. Um grupo de crianças passou correndo, brincando n`água da chuva, e deu-lhe o mínimo de ânimo que precisava para retornar e ligar à polícia. Precisava explicar a morte do ex-marido.


Glenio Fontanella

 

 

 

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