Contos

E se ...



Como de hábito, enquanto tomava meu café da manhã, observava furtivamente o vizinho da casa em frente. Homem de uns quarenta anos, morava na companhia da esposa até a morte dela, há cerca de uma semana. A casa já era demasiado grande para duas pessoas, e agora parecia um imenso navio sem tripulação. Apenas um capitão solitário indo e voltando do trabalho e, ao chegar, envolvido com tarefas de limpeza e organização, como se a conservação do espaço tivesse o poder de dar continuidade a uma vida que já não existe.

Antes parecia haver sempre uma aura de alegria em volta deles, e, se alguma vez adivinhei que discutiam, logo voltavam à rotina dos abraços, tudo se resolvia sem deixar marcas. Acompanhei, sempre protegida pelo vidro escuro, a degradação física da mulher, acometida por doença grave, que os fazia sair rotineiramente e voltar abatidos, ela tendo que ser amparada para subir os poucos degraus da frente.

No último mês, ele passava o tempo todo em casa, certamente velando pela mulher já destruída pela doença. Eu ainda podia vê-lo, emagrecido e desanimado, nas poucas vezes em que se permitia tomar um ar fresco, em frente à casa.

Pensei muitas vezes em invadir a fria aura de tristeza que agora era a moldura de um lar outrora cálido e apresentar-me à porta, oferecendo alguma palavra, algum conforto. Mas como fazê-lo, sem parecer obsessão o carinho que nutria pelos dois, à distância, com inveja daquele amor doce e tranquilo que os unia?

Retraí-me, sempre, e mantive meu silêncio. A cada dia, notava-o absorvido pelas tarefas de organizar a casa. Até que o movimento cessou, súbito, e por dois dias minhas idas à janela não fizeram mais sentido. No terceiro dia, percebi alguém que batia à porta, com insistência, logo depois o carro da polícia, e mais gente acorreu. Foi encontrado suspenso por uma corda, o corpo sem vida, no quarto onde passou seus melhores e piores momentos.

Chorei minha culpa intolerável por vários dias: E se eu tivesse cedido ao impulso de levar-lhe uma palavra de consolo?






Maria Tereza Vieira Lopes