Contos

E se fosse demais pra mim?



Eu tinha sete anos e podia voar. Vocês podem imaginar o que é isso? Poder voar, dar rasantes, voar ao lado de uma andorinha, sentir o vento acariciando todo o corpo; voar alto, baixo, rápido, bem devagarinho e, o melhor de tudo, voar sem precisar de capa. Eu voava! E sempre que isso ocorria em meus sonhos, no dia seguinte coisas boas aconteciam. Minha mãe fazia meu almoço predileto, meu irmão deixava eu andar de bicicleta, meu pai permitia que eu brincasse com a máquina de escrever, me era permitido brincar até mais tarde na rua.

Mas teve uma noite em que eu voei e o dia seguinte foi muito, muito triste. Naquela noite, sonhei que estava voando e ao mesmo tempo brincando com minha amiga Mônica. Ela era linda, tinha olhos verdes, com sardas no rosto, sorriso meigo, frágil, parecia uma anja. No sonho voei muito, me diverti, ri, cansei e dormi. Na manhã seguinte, levantei pensando o que aconteceria de maravilhoso, afinal, o meu sonho tida sido show. Provavelmente meu pai me daria moedas para comprar chicletes ou um sorvete quente, ou então, meu irmão não iria me obrigar a brincar de carrinho com ele. Enquanto pensava nesses belos desejos, começou a tocar o sino da igreja anunciando uma morte. Um som triste, uma melodia quase infantil, já que aquele sino tinha o poder de definir em suas badaladas se era homem, mulher ou criança. Minha mãe abriu a porta, conversou com a vizinha e voltou. Não gostei nadinha do modo como ela me olhou, sentou ao meu lado, pegou minha mão e anunciou bem devagar, meio sem jeito, que minha amiga Mônica tinha falecido. FALECIDO? O que era isso? Mas eu já chorava. O sino já tinha dado seu recado.

Naquela época, costumava-se velar a pessoa em casa. Eu não queria ir, mas ela era minha amiga, ela sabia que eu voava, eu devia um “tchau”. Fui. Achei que eu não conseguiria mas, quando entrei no quarto, espiei entre as mãos, braços e pernas de gente grande, e vi minha amiga deitada na cama, vestida de branco, com seu cabelo comprido enfeitando os ombros e o peito, com um leve sorriso no rosto. Só faltavam as asas para ser um anjo. Mas como não precisamos de asas e nem de capa para voar, ela realmente era uma anjinha. Fui até ela, dei um beijo e minha mãe rapidamente me tirou de lá.

Nunca mais voei.


Éllen Regina Pires