Contos

E se eu não sair daqui?



Minha mãe vive dizendo que não aguenta mais: “quando vai chegar a hora desse menino nascer?” Bem, não tenho a menor ideia do que ela quer dizer com isso, confesso. Por mim, está ótimo, não preciso ir a lugar nenhum. Durmo e acordo quando quiser, soluço pra passar o tempo, dou uma espreguiçada e chupo meu dedão. Como posso querer outra vida? Sair dessa bolha de água quentinha, nem pensar!
Apesar de ultimamente ter ficado meio apertado por aqui, acho que ela andou comendo demais. Olha só, rapaz, não posso nem esticar as canelas e, logo chuto essa parede.

Outro dia, levei o maior susto, parecia um terremoto, ela sacolejava sem parar e um som muito alto invadiu meus ouvidos. Acho que começou uma aula de dança e esqueceu que eu ainda estava aqui. Minha sorte foi logo ela precisar fazer xixi, então aproveitei para avisar que não estava dando para aguentar. Dei um chutão para avisar que tem gente em casa! Se vai continuar pulando, vou precisar fazer um cinto de segurança com este cordão da minha barriga. Brincadeira, minha mãe é legal.

Algumas vezes, parece que ela fica triste e chora bastante. Ela soluça como eu, quando diz, alisando a barriga, que falta dinheiro para comprar minhas fraldas, meu berço, minhas roupas. Que vai telefonar para aquele cafajeste - a voz dela aumenta o tom nessa hora e ela fica brava – e avisar que ele vai ser pai.

Pai? Já ouvi alguém perguntar: “quem é o pai?” Ela responde que é produção independente – “este menino só vai ter mãe”. Por mim tudo bem, posso ficar aqui dentro numa boa, a gente vai levando a vida, juntinhos. Prometo que chuto mais devagar quando ela ficar velhinha.
Uma vez por mês ela vai ao mesmo lugar falar com alguém com um nome engraçado – o doutor. Eles conversam sobre mim e sobre um tal de parto. O doutor falou para ela que tem tudo para ser natural e, quando for a hora, deverá vir com alguém para o hospital. Que hora será essa? Não me importo, meu lugar está reservado, a qualquer hora vou estar sempre aqui.

Hoje à noite minha mãe falou ao telefone com alguém que ela conhecia bem, reclamou irônica: “tá sumido hein?” Ela chorou de novo e disse para a pessoa vir saber qual era a novidade. Desligou logo o telefone. Penteou os cabelos, alisou a barriga e suspirou. De repente, alguém veio falar com minha mãe. Ela falou: “entra”.

Foi estranho, porque outra mão começou a alisar a barriga dela e uma voz grossa falava com a boca grudada na pele: “oi meu filho, sou seu pai”.

Será que era o “aquele cafajeste” ameaçando a mamãe? Opa, espera aí! Não se meta com a gente, eu chuto bem forte. Foi só fazer isso e ele tremeu de medo, porque começou um corre, corre, ela andava meio esquisita, com as pernas abertas, segurando a barriga e dizendo: “vai nascer, vai nascer!”


Sheila Simões

 

 

 

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