Poesias

Vida Dura

Catia Schmaedecke




De certeza que é de fome
O pranto forte dessa gente

Meia volta ou volta e meia
Ficam todos descontentes

Tanto faz se é puro o pão
Ou recheado de melado

Sobe e desce a ladeira
O pai sempre desempregado

A mãezinha coitadinha
Lava a roupa do patrão

Vira a noite cozinhando
Refogado de feijão

Vai à feira, faz a xepa
Sente orgulho da labuta

À família presta contas
Nunca foi prostituta

Em terreno de miséria
Honestidade é medalha

Reza forte e chama o santo
Não precisa de migalha

Filho Ben acorda cedo
Vê o dia amanhecer

O chinelo é de dedo
A escola é seu lazer

Quando alguém lhe oferece
Boa quantia em dinheiro

Na favela anoitece
E ele vira cangaceiro

Exibe relógio novo
Sorriso com dente de ouro

Olhar duro para o povo
Cabelo pintado de louro

Em país de terceiro mundo
Carro de luxo é ostentação

Cruzeiro pelo Atlântico
Não tem explicação

Certa noite de lua cheia
A polícia bate forte

Ben rola morro abaixo
Provocando a sua morte

O pai na calçada chora
A revolta corrói seu peito

Lembra-se de que outrora
Tudo era tão perfeito

O casal em comunhão
Reúne a pouca mobília

Retornam para o sertão
E formam nova família


Foto: Os Retirantes _ Cândido Portinari – 1944 - Óleo s/ Tela. 190 x 180 cm - Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand.

 

 

 

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