Contos

Ameno

Marília Bonna





Antes da Conceição, João Altino era um tipo suave, agradável, ameno, mesmo quando não tocava a clarineta – o Antenor disse, certa vez, que a clarineta era o instrumento mais suave, mais agradável, mais ameno de todos os instrumentos do Rancho. E era João quem tocava clarineta no Ameno Resedá. E na banda da Marinha, na Pedra do Sal, no Morro da Providência, nos teatros da praça Tiradentes, no sobrado em que morava na Gamboa. Nada, no entanto, como tocar no Rancho vestido de rei, na fileira dos mestres de Harmonia, Conceição bem ao lado. Foi assim – por causa do Antenor, por causa do som de sua clarineta – que ficou conhecido entre os amigos como o Ameno.

Antes da Conceição, o Ameno era um bom filho para Dona Amância, nos becos do Morro da Providência, onde cresceu sob o olhar afetuoso do pai: soldado que perdeu um braço na Guerra dos Canudos e nunca mais pôde sofrer ao violão – o único jeito, aliás, de que gostava de sofrer. Depois, continuou bom filho no sobrado da Gamboa, onde só moravam ele e Dona Amância. E a clarineta. Mas isso foi antes da Conceição.

Antes da Conceição, nos dias em que não tinha ensaio do Rancho, nem espetáculo, nem roda de choro, nem solidão para curtir no quarto do sobrado, o Ameno saía da Marinha e pegava uma condução até a Cinelândia só para ouvir o Ernesto Nazareth tocar piano na frente do Odeon. Ficava ali parado, a clarineta guardada, o chapéu nas mãos (achava até uma falta de respeito escutar música de chapéu). Quase fechava os olhos para sentir melhor o piano do maestro.

Tinha uma vontade de ir falar com o pianista, de ir lá dizer que tocava clarineta, e que o Antenor achava a clarineta o instrumento mais suave, mais agradável, mais ameno de todos os instrumentos do Ameno Resedá. De ir contar do Rancho, de como era o mais bonito de todos, de como saíam fantasiados de reis, príncipes, deuses, flores, animais. De como ganharam o carnaval vestidos de Côrte Celestial, e de como a nova porta-estandarte – que dançava com a bandeira do grupo nas mãos – era tão bonita e se chamava Conceição. Como a santa, como o Morro.

Tinha vontade de pedir que ele fizesse uma música em homenagem ao seu Rancho. Mas nunca pediu. Tinha vontade, às vezes, de pegar a clarineta para acompanhar o maestro. Mas nunca pegou. E Nazareth, antes da Conceição, jamais saberia que aquele sujeito ameno, de chapéu nas mãos e olhos românticos, que aparecia sempre para ouvi-lo tocava clarineta tão bem no Ameno Resedá. E na banda da Marinha, na Pedra do Sal, no Morro da Providência, nos teatros da Praça Tiradentes, no sobrado em que morava na Gamboa. Antes da Conceição, João Altino era só um homem comum que tocava clarineta. Como tantos.Um homem comum que trabalhava, que jantava todos os dias em casa com a mãe, que pagava aluguel, que adorava o carnaval, que não gostava de briga, que sorria, e que tinha uma noiva: a Ismália era a noiva do Ameno, antes da Conceição. Dona Amância gostava da Ismália.

Da Conceição, não. Antes dela a vida era boa, e o filho era só um homem comum. Um homem tranquilo, incapaz de fazer mal a alguém. De odiar, de ferir, de matar, de cair na boca do povo, nas tintas dos jornais, no ouvido de gente importante (como o maestro!), de deixar a mãe sozinha naquele sobrado da Gamboa. Antes da Conceição, era um homem bom. Um homem que tocava clarineta – o instrumento mais suave, mais agradável, mais ameno de todos os instrumentos do Rancho.

Depois da Conceição, acabou clarineta, carnaval, bom filho de Dona Amância, bonde para ouvir Ernesto Nazareth tocar piano, jantar em casa, aluguel, Ismália.Depois da Conceição, não tinha mais Ameno.

 

 

 

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