Contos

E se eu tivesse coragem de matá-lo

Maristela Martins Silva





Não sei explicar como aconteceu, mas o fato é que um dia desses ao arrastar o sofá para pegar a tampa da lapiseira, descobri no canto da parede um buraco quase do tamanho de uma bola de tênis. Intrigada, peguei uma lanterna e descobri que dois pequenos olhos brilharam avermelhados diante da luz. Fiquei apavorada imaginando o que poderia ser. E se fosse uma cobra, uma aranha caranguejeira? Como isso era possível? Tudo bem que eu morava no primeiro andar de um prédio, mas abaixo ainda tinha o primeiro e segundo subsolo para estacionar os carros. Pensei em chamar o zelador, mas não tive coragem de importuná-lo já que passava das onze horas da noite. Além do mais o que eu ia dizer, que descobri um buraco no canto da sala e dentro dele tem um bicho estranho?Não seria demais para uma advogada criminalista que convive com o que de pior da natureza humana, encara promotores e juízes,ligar no meio da noite amedrontada como se fosse uma criança?Ah não, que tipo de mulher eu era,afinal? Mas o fato era que eu tinha perdido a paz dentro do meu próprio apartamento e estava apavorada como se tivesse uma arma apontada para a minha cabeça. Com a certeza de algo estranho me observando naquele exato momento, corri para o meu quarto, girei a chave quantas vezes foi possível, peguei uma toalha úmida e enfiei no vão entre o piso e a porta. Passei a noite em claro imaginando o que eu faria se ao sair do quarto pela manhã me deparasse com uma cobra naja, erguida a quase um metro do chão,pronta para me dar o bote fatal.

Quando o dia finalmente clareou, fui sob as pontas dos pés até a porta, girei a chave quase em câmera lenta e ao abri-la de supetão dei de cara com um rato enorme comendo um pedaço do sanduíche que eu tinha deixado cair na correria da noite anterior. Diante do flagrante ele me olhou aterrorizado, saiu patinando no piso liso e se chocou com tudo contra a parede antes de acertar o buraco. Também parecia apavorado, porque nessa hora bati a porta do meu quarto com toda força. Respirei aliviada, embora eu soubesse que aquele não era um rato comum, porque além de grande, era branco e tinha manchas avermelhadas. Mas antes isso do que uma cobra ou uma aranha peluda.

A caminho do trabalho fui pensando- “e seu eu tivesse coragem de matá-lo”, o que eu faria? Pensei cutucá-lo com o cabo do rodo ou dar-lhe uma panelada ou preparar uma ratoeira ou colocar veneno num pedaço de queijo. Isso, veneno!

Quando no fim do dia voltei para o apartamento, ao abrir a porta falei bem alto: - comece a rezar,meu caro,porque hoje será a sua última refeição. Porém, enquanto eu preparava a substância no pedaço de queijo,me lembrei dos olhos amedrontados do rato, pensei no poder fulminante do veneno, na dor aguda e na agonia da morte certa. Não tive coragem e desistido meu plano.No entanto, convicta que debaixo do mesmo teto nós dois não coabitaríamos, em menos de dez dias eu já estava morando bem longe daquele lugar.

 

 

 

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