Contos

Transformação



Quando certa manhã Vitinho acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado em uma bela borboleta azul. Seu dorso prolongado pelas asas repousava sobre o sexo de sua namorada, feito um adorno.
Era como se do púbis brotasse o inseto, que insistia em se deixar ficar sobre o tufo de pelos, e com espasmos curtos, quase imperceptíveis, hesitava em mover-se. Hesitava entre o voo e o sexo.

A namorada olhava o bicho encantada com o azul daquelas pétalas laterais que conferiam ao inseto uma aparência de sonho. Não se movia, por sua vez, temendo que o encanto se quebrasse, embora a vergonha de se ver exposta a impelisse ao contrário. Foi vencida pelo encantamento. O ser etéreo começou a balouçar sobre ela, um halo de fumo se espalhava pelo quarto, tudo envolto em névoa. Não se divisava mais o que era ente e o que era sexo. Pelos e pétalas eriçadas.

Os dois se abraçavam num abraço tal, que quase decolavam pelo exíguo espaço da cama. Lá fora se ouviam barulho de gente. Mas isso não os intimidou. Agora a libélula a forçava a levantar as nádegas, evitando seu pretenso voo, num jogo que só as fêmeas são capazes.

Então, algo disparou dentro dele. Agia como tal, como sexo oposto:- “- mas, pensando bem-, melhor não se importar”. Não ligou, agora era uma borboleta. Uma assexuada.“Sou uma lepidóptera”-, pensou. “Tenho asas escamosas”.E começou a espalhar o pó, que cobria suas asas, sobre lábios da, agora, imensa vulva. A namorada movia-se em movimentos espasmódicos, num crescendo, como a coda de um granfinale. Num misto de prazer e violência, um desejo de fazer o bicho gozar até morrer.

Então ela passou a mexer devagarinho, movendo as ancas de um lado para o outro, abrindo e fechando as pernas, num amplexo que alargava a flor da grande vulva. Tiritando, descontrolada, febril. Enquanto o dorso do animal deslizava lentamente para dentro. Quando, zás, num trançar de coxas, ela o empurrou todo para si, que escapoliu para o fundo, e com o suor escorrendo lhe pela face,- apertou as pernas no clímax e até mata-lo.


Victor Araújo

 

 

 

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