Diálogos

Confinado



- Borges, podemos começar?
- Começar?
- Onde está?
- Não tenho ideia...
- Na delegacia, não vê?
- Vejo que estou algemado...
- Por que está aqui?
- Não sei dizer...
- Pode fazer mais do que isso, Borges. Tomou os remédios?
- Tomei.
- Tem certeza?
- Quais remédios?
- Estes aqui na mesa, ao lado da sacola.
- ...
- Não tomou... Imaginei. O Dr. Yo sabe disso? Que já não toma os remédios?
- Não, ele não sabe...
- Onde está Carla, Borges?
- Carla? “Minha” Carla?
- Apenas Carla... cadê ela?
- Em casa, eu acho... ela foi me visitar hoje...
- Então lembra?
- Lembrar de quê?
- De Carla.
- Cara, eu não sei do que você está falando!
- De Carla.
- Carla é minha namorada e está na minha casa! Ao menos é disso que me lembro!
- Como veio para cá, Borges?
- Eu não sei, porra!
- Veio por Carla. Lembra?
- Por Carla?! Ela está bem?!
- Diga.
- EU – NÃO – SEI!
- Sabe. Eu sei.
- Então me diga: cadê Carla?
- Qual parte?
- Como assim, qual parte?
- Qual parte dela você quer?
- ...
- Lembra?
- Cala a boca...
- Carla já não existe mais. É estranho, não acha? Como podemos ser tão fracos, seres tão insignificantes que, de uma hora para outra, sumimos. Carla era mais do que insignificante, não acha?
- Você não sabe o que fala...
- Ela lembrou da época da faculdade? Lembrou do rapaz esquisito, de dentes amarelos e tique nervoso? Ou será que a polpuda conta bancária fez com que ela esquecesse as humilhações que causou?
- Cala a boca, seu filho da pu...
- E Ana? E Júlia? Clara e Bel? Namoradas também? Advogadas e economistas... Mesmas faculdades de Borges. Lembra das humilhações?
- Isso tudo passou, eu superei.
- Percebo. Lembra?
- Lembrar do quê?!
- A sacola na mesa. Está vendo? Está vermelha. Quantas armas você têm?
- 13 facas.
- Agora 12. Uma já era. Sangue de vaca não sai da lâmina de um artefato de colecionador.
- O que isso quer dizer?
- Carla humilhou Borges. Borges matou Carla.
- Não pode ser...
- Sim, é... argh! Belo soco, Borges. Não é uma sensação sublime tirar o sangue de alguém? Parece que estamos saindo de um confinamento, e libertando também a alma de outra pessoa. Borges adora esta sensação, não é?
- ...
- Escute só... Alguém está vindo te ver também, Borges.
- Sr. Eduardo Borges, eu sou o detetive Aragão e... Meu Deus, o senhor está sangrando!
- Não foi nada, apenas um soco...
- Como assim? Seu rosto está sangrando!
- Sim, eu sei. Posso tomar meus remédios, por favor?


Stephanie Claro