Diálogos

Café

Daniel Brandão


– Doutor, tiroteio no Jardim São Paulo – informou o policial. – Um morto e dois no hospital.
– Azar o deles – respondeu o delegado. – Não mandei irem atrás de drogas. Cambada de marginal.
– Pediram pra você passar lá.
– Pra quê? Estou atolado de serviço aqui. Faz um mês que não consigo dormir direito de tanto trabalhar, e esse bando de bichas ainda querem que eu vá… Ah, pau na bunda deles. O caralho que vou.
– Não sei, só pediram.
– Não vou, mandem outro. Não tenho tempo para perder com drogados. Que se fodam. Traz café pra mim e me ajuda com essas porras de papéis.
– Doutor, ligação pra você! – gritou a secretária. – É a sua esposa.
– Não posso atender! Diz que falo com ela quando chegar em casa.
– Ela disse que precisa falar agora.
– Manda falar com o cachorro então! Puta que pariu. Qual a dificuldade de entender?
– Então você não vai passar lá no Jardim São Paulo mesmo? – questionou o policial.
– Nem fudendo. Vai você lá, depois me passa tudo. E cadê meu café?
– Tá na cozinha. Levanta daí e vai pegar. Você precisa dar uma volta, descansar.
– Preciso que você me ajude em vez de ficar dando conselhos inúteis
– Por que não tira umas férias? Vai viajar com a sua família. Como está seu filho?
– Não sei. Faz uma semana que não vejo ele.
– Uma semana, doutor? Que isso, precisa passar mais tempo com ele. Manter a união na família.
Podia tomar café da manhã com ele, isso ajuda.
– Meu filho me odeia. Pega essa cópia na impressora pra mim. Só sabe pedir dinheiro e reclamar da vida.
– Tá igual o senhor então. Quantos anos ele tem?
– 17, acho. Tenho que ver… Pega o relatório ali pra mim.
– Idade difícil. O meu já tá casado, graças a Deus. Queria virar policial também, mas eu disse que
era melhor não, e ele seguiu meu conselho. O seu quer ser o quê?
– Não sei, caramba. Ele… Alô, que foi querida? Eu já não disse que estou ocupado? O que tem ele? Como assim? Para de chorar, porra! Não… Como? Mentira. Com quem? Certeza que ele não tá no hospital?
– Que foi seu delega?
– Onde foi o tiroteio?
– Jardim São Paulo. O senhor tá bem? Precisa de ajuda?
– Meu filho. Era meu filho.

 

 

 

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