Diálogos

Conversa Fiada



- Oi, filha!
- Fala, mãe – Carla sussurrou, revirando os olhos e tamborilando a caneta na mesa.
- Liguei só para saber se está tudo bem – Dona Ana disse suavemente.
- Tudo bem – confirmou, pensando que entre o último telefonema e este, mal tivera tempo de ter novidades para contar à mãe.
- Aqui também. Parece que vem chuva com esse calorão fora de época, não é?
- É… - Carla conferiu de soslaio o céu de brigadeiro pela veneziana – e o pai?
- Teu pai está bem, lendo ali na varanda, esperando o almoço. Estou preparando um ensopadinho, que ele tanto gosta.
- Mãe, tu sabes bem que não posso ficar assim de conversa fiada no meio do expediente.
- Vens almoçar domingo, filha?
- Hoje é recém terça-feira, mãe, impossível saber.
- Se não puderes, não tem problema – depois de um silêncio breve, rogou docilmente. - Vem para o café da tarde, então.
- Tenho que desligar – respondeu, notando o chefe levantar os olhos do outro lado do vidro e fixá-los nela.
- Daí poderias aproveitar para trazer do Mercado uma daquelas gaiolas duplas para os meus canarinhos. Estão querendo namorar.
- Tá, mãe, tá! – Carla manteve os olhos grudados no chão do parquet carcomido, já antevendo o domingo num ônibus, com uma gaiola dupla e o café da tarde com os velhos.
- Tudo bem, filha, estou vendo que estás com pressa. Fica com… - triste, percebe o silêncio sepulcral na linha - ...Deus!


Alison G. Altmayer